Economia Vitorino: "Detesto ser profeta da desgraça"

Vitorino: "Detesto ser profeta da desgraça"

O diretor-geral da Organização Internacional das Migrações (OIM), António Vitorino, alerta, numa entrevista à Lusa, para os sinais que têm vindo a surgir e que podem desencadear no futuro novas e grandes crises migratórias.
Vitorino: "Detesto ser profeta da desgraça"
Lusa 07 de janeiro de 2019 às 09:28

"Detesto ser profeta da desgraça e tenho sempre a esperança de que potenciais crises sejam evitadas", responde, quando questionado sobre possíveis focos de futuras crises migratórias no mundo e, embora reconhecendo que existem esses sinais, apela à atenção e ação da comunidade internacional, nomeadamente na aplicação de medidas para minimizar potenciais impactos.

 

"É obvio que há Estados frágeis, há situações de tensão e de conflito potencial em zonas fronteiriças, há grupos de terroristas que atuam em várias zonas deste globo e que geram enorme intranquilidade nas populações e muitas vezes obrigam as populações a deslocarem-se significativamente", enumera.

 

Mas há outros sinais a ter em atenção, especialmente quando se fala em alterações climáticas, segundo António Vitorino.

 

"Todos nós podemos identificar com relativa facilidade quais são as zonas que estão mais diretamente afetadas pelas alterações climáticas. Temos o problema da água, que é provavelmente o problema mais sério do século XXI. Temos terras agrícolas completamente esgotadas onde as populações que tinham um modo de vida rural não vão continuar a poder subsistir, essa situação de esgotamento de um modelo de vida rural em certas zonas do globo leva às pessoas a deslocarem-se para as cidades. Há um fenómeno de urbanização muito significativo em todos os continentes e as cidades muitas vezes não estão preparadas para enfrentar esta chegada significativa", afirma.

 

E há ainda a subida das águas do mar, com o diretor-geral da OIM a recordar uma conversa que manteve com um representante de um país do Pacífico que lhe explicou que, consoante a evolução da maré, o território nacional do país em questão perdia um terço da sua dimensão.

 

"O que significa que, se a subida das águas do mar se produzir, não havendo sucesso na luta contra as alterações climáticas, naturalmente que essas populações em zonas mais vulneráveis vão ter de ser realocadas noutros locais, não apenas do próprio país, mas de outros países. Há aí um caso de migração forçada por força das alterações climáticas", salienta.

 

"Tudo isto não é seguro, nem certo, mas é pelo menos antecipável, previsível e, portanto, medidas de mitigação e de minimização dos impactos podem e devem começar a ser aplicadas imediatamente", reitera.

 

Um dos casos que especifica é o da Nigéria, país que, em 2030, terá 450 milhões de habitantes, cenário que poderá desencadear, por falta de postos de trabalho suficientes, movimentações em massa.

 

"As projeções demográficas têm de ser sempre tomadas com grande precaução. Mas uma coisa é segura, a Nigéria é um dos países onde o ritmo de crescimento da população é mais acelerado e, portanto, há que prever que essa pressão migratória oriunda da Nigéria vai manter-se e até aumentar nos anos mais próximos", afirma.

 

"Isso exige obviamente uma intervenção e um apoio da comunidade internacional para criar as condições de as pessoas ficarem no seu lugar de origem", acrescenta o diretor-geral da OIM, não esquecendo o facto de a Nigéria ser um país afetado pelo movimento extremista Boko Haram, que quer instaurar um estado islâmico na zona norte daquele país, maioritariamente muçulmano, ao contrário do sul de maioria cristã, e que já provocou mais de 2,6 milhões de deslocados internos desde 2009.

 

Numa intervenção no Seminário Diplomático, a reunião anual dos embaixadores portugueses que decorreu na semana passada em Lisboa, António Vitorino identificou sete grandes crises que concentram atualmente as atenções da OIM: os refugiados da minoria muçulmana rohingya no Bangladesh e em Myanmar (antiga Birmânia), Iémen, Síria, região do Sahel, Líbia, América Central e as três milhões de pessoas que saíram da Venezuela para os países mais próximos.

 




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