Tenho saudades, Bill

Em 2002 escrevi um texto sobre um dos melhores analistas norte-americanos, que morreu no dia 11 de Setembro do ano anterior. Na altura, poucos foram os que leram esse artigo, publicado num pequeno fórum que estava a nascer. Hoje, 8 anos depois do trágico atentado, senti a vontade de voltar a publicar o artigo, homenageando Bill Meehan perante mais leitores. Relendo hoje o texto, não altero uma única vírgula ao que escrevi e é assim que ele vos é mostrado: Com as mesmas palavras, ideias e - sobretudo - sentimentos.
Jornal de Negócios
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Ulisses Pereira 11 de setembro de 2009 às 14:55

11 de Setembro de 2001
Passam 30 minutos do meio dia quando a janela do MSN pisca no meu computador. Do outro lado do Atlântico, Bill escreve a mesma frase com que me cumprimenta todos os dias: "Hi Portuguese guy!".
Conheci Bill Meehan, "head trader" da corretora norte-americana Cantor Fitzgerald, através da troca de alguns mails sobre bolsa em 2000. Desde aí, as conversas sucederam-se e, mesmo sem nunca nos termos conhecido pessoalmente, uma Amizade forte tinha crescido.
Interrompo a minha conversa com ele para ir almoçar. A televisão está desligada e vou dando uma espreitadela ao computador pelo canto do olho, para ir controlando as cotações na nossa bolsa. O mercado está a ressaltar e eu tenho muitas posições longas abertas no nosso mercado, pelo que não posso perder de vista as cotações.
O mercado está calmo mas, de repente, uma onda de vendas assola a nossa Bolsa. Foi brusco demais para ser normal. Salto da cadeira, dirijo-me ao computador e as vendas continuam. Algo aconteceu, pensei eu. Rapidamente encontro na Internet a informação que um avião chocou contra uma das torres gémeas.
Ligo a televisão e os noticiários já estão a dar imagens do "acidente". "Bem... os mercados apanharam um susto com o acidente mas rapidamente recuperam", penso eu para os meus botões.
Vou continuando a seguir as imagens televisivas e a controlar as cotações que, pouco a pouco, vão recuperando quando, em directo, vejo um outro avião embater na outra torre. De imediato, a hipótese de atentado transforma-se em certeza para mim.
Sem hesitar, ligo para a corretora onde negoceio, na qual trabalha a minha irmã e mando vender todos os meus contratos no mercado de futuros. Do outro lado da linha, a minha irmã diz que é uma maluqueira vender tudo pois iria entregar os meus contratos muito abaixo do preço do mercado à vista.
"Vende de qualquer maneira!", grito eu perante a renitência dela em o fazer. É a primeira vez na vida que grito com a minha irmã. Não gostei da sensação. Mais logo, tenho que lhe pedir desculpa.
No entanto, uma sensação de alívio apodera-se de mim. Estou fora deste inferno e consegui sair sem grandes perdas. Estava tão embrenhado no ritmo do mercado que só agora começo a pensar na enorme tragédia humana que aconteceu.
De repente, paro para pensar uns instantes e lembro-me que o Bill trabalha numa das torres do World Trade Center. Salto de imediato para o teclado do meu computador e na janelinha que estava aberta com o seu nome pergunto-lhe se ele está lá. Nenhuma resposta obtenho. Repito incessantemente a mesma frase quase como se quisesse chamar por ele no meio daquele inferno. Nenhuma palavra vinha do lado de lá.
"Em que andar estará ele?. Será que conseguiu fugir do inferno de chamas em que se transformaram as duas torres?" Perguntas às quais não consigo obter resposta e que não param de ecoar na minha cabeça. De um momento para o outro, os números e os mercados deixaram de ter qualquer importância.
Ao fim da tarde, o site www.realmoney.com, no qual o Bill colaborava com os seus excelentes artigos, informa que Bill Meehan se encontrava no 105º andar da torre Norte do World Trade Center no momento do embate do primeiro avião e que se encontra desaparecido.
Era esta a notícia que eu mais temia. Estando ele nos últimos andares da torre Norte, teria sido impossível ele ter escapado com vida depois do primeiro embate. Bill morreu.
É a primeira vez que perco um Amigo que nunca vi. Mas nem o facto de nunca ter visto o seu sorriso, nunca o ter olhado nos olhos, o tornavam menos próximo de mim. Uma das coisas que aprendi com ele é que a distância só existe quando nós queremos e quando deixamos que as palavras se calem.
O Bill era uma pessoa especial. Como são especiais todos aqueles que nos são próximos. Nem o facto de ser um dos mais respeitados analistas americanos lhe retirava a simplicidade e a disponibilidade para trocar opiniões com quem o contactava. Foi assim que o conheci. Foi assim na última conversa que tivemos.
Não vos posso falar do sorriso dele. Não vos posso falar do olhar dele. Mas posso-vos dizer que tinha um coração do tamanho do mundo.
Começo a escrever a análise diária na Sic Online. Será, sem dúvida, o dia em que menos vontade tenho de escrever. O texto termina assim: "Alguém no cimo do mundo, no topo da sua carreira, de um momento para o outro perde a vida. Se hoje perdeu muito dinheiro nos mercados, lembre-se das coisas que o fazem feliz. Lembre-se daqueles que são verdadeiramente importantes para si. Há coisas na vida que não têm preço. Há dias em que falar de bolsa devia ser proibido."

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