Educação Universidade do Porto reserva licenciados para as PME "da terra"

Universidade do Porto reserva licenciados para as PME "da terra"

Um banco de currículos e a sinalização dos jovens do concelho nas faculdades da Invicta são medidas previstas nos acordos com 55 municípios, para evitar que sejam apenas as grandes empresas e multinacionais a aceder a quadros qualificados.
António Larguesa 07 de março de 2018 às 20:59

A Universidade do Porto (UP) quer facilitar o acesso das PME portuguesas aos recém-diplomados nas áreas que mais emprego têm gerado no país e que têm entrado sobretudo no radar das grandes companhias e das multinacionais. "Estas empresas de pequena e média dimensão são responsáveis por 2,3 milhões de empregos em Portugal, mas normalmente não chegam a estes quadros. Interessa-nos fortalecer isso ao nível do território", adiantou ao Negócios o reitor, Sebastião Feyo de Azevedo.

 

Para fazer chegar os perfis desses estudantes e diplomados às PME de Norte a Sul do país, a UP está a criar uma espécie de banco de currículos nas mais variadas áreas de conhecimento. Por outro lado, quer ajudar essas empresas e os municípios a que pertencem a conhecer os jovens daquela zona que estudam nas faculdades da cidade Invicta, "promovendo um contacto mais chegado dos estudantes com a própria realidade dos meios de onde vierem" e potenciando a partilha de oportunidades de emprego qualificado, para facilitar até o regresso às terras de origem no final do curso.

 

Ou seja, exemplificou, se uma PME de Felgueiras ou de Castro Daire quiser fazer um trabalho de design ou de engenharia e souber que há dois "filhos da terra" que estão em Belas-Artes e outros tantos na FEUP, poderá contactá-los para perguntar se estão interessados. "Ou então ao contrário: dizer aos estudantes que há certas oportunidades de emprego nas áreas deles [numa dada zona] e verem se estão interessados. Podem estar ou não estar e querer ir para outros lados. Isso ninguém pode nem quer impedir, naturalmente. Eles também são jovens e gostam de se mexer", completou o reitor, salvaguardando que o aluno vai poder avalizar ou negar a difusão dos seus dados pessoais e académicos.

 

Estou convencido que muitos jovens terão natural gosto – e não terão nada contra – em começar a trabalhar numa PME, até idealmente da sua região. sebastião feyo de azevedo, reitor da universidade do porto

E sente nos recém-licenciados em áreas com muita procura por parte dos grandes recrutadores esse interesse em ingressar e iniciar a carreira numa PME? "É difícil responder. Se aparecer um emprego fantástico ninguém vai dizer que não, claro. Mas o mercado de trabalho é muito diversificado e há uns tantos jovens que têm dificuldade em arranjar um primeiro emprego. Portanto, estou convencido que muitos terão natural gosto – e não terão nada contra – em começar a trabalhar numa PME, até idealmente da sua região", respondeu Sebastião Feyo de Azevedo.

 

Este banco de currículos e a comunicação privilegiada entre as PME regionais e os estudantes são dois dos principais pontos nos protocolos que a UP vai assinar esta quinta-feira, 8 de Março, com mais 25 câmaras municipais de todo o país, como as de Castanheira de Pêra, Grândola, Oliveira de Frades, Trancoso ou Castelo de Vide. E que se juntam às 33 autarquias que já tinham rubricado acordos em 2015 e 2016, embora não fossem tão ambiciosos como estes na ligação às empresas instaladas fora dos grandes centros urbanos.

 

Engenheiro madeirense em S. João da Madeira

 

Foi por causa do protocolo assinado há três anos pela autarquia de S. João da Madeira que a Tech4Food acabou por participar na FINDE.U, a feira internacional de emprego organizada pela UP com conjunto com as Universidades de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e de Vigo – a Católica também se prepara para aderir –, que tem uma edição anual física no Outono (tanto no Porto como na Galiza) e outra virtual, que este ano acontece entre 16 e 18 de Abril.

 

Rui Ponte foi um dos milhares de jovens que passaram pelo último certame, realizado na Exponor. O madeirense de 24 anos, que em Setembro de 2017 tinha terminado o curso de Engenharia Mecânica na FEUP, estava à procura do primeiro emprego e entregou um currículo no stand desta PME especializada em engenharia de processo na indústria alimentar, que poucas semanas depois o chamou para uma entrevista. Com o regresso à ilha onde nasceu e cresceu fora dos planos, até idealizava um local de trabalho mais próximo do Porto, mas gostou da oferta na sua área de especialização feita por esta empresa com escritórios no concelho pertencente ao distrito de Aveiro.

 

Numa PME os resultados do nosso trabalho vêem-se mais imediatamente do que numa grande organização. Tem sido uma vantagem, até agora. rui ponte, engenheiro mecânico na tech4food


O facto de se tratar de uma PME "não foi um critério de escolha", admite Rui Pena, que também chegou a enviar currículos para empresas multinacionais. Ainda assim, dois meses após ter começado a trabalhar na Tech4Food, reconhece ao Negócios que numa estrutura de menor dimensão acaba por ter "mais contacto com o que acontece em toda a empresa" e "fazer coisas variadas, em vez de algo mais específico". "Os resultados do nosso trabalho também se vêem mais imediatamente do que numa grande organização. Tem sido uma vantagem, até agora", acrescentou.

 

Receber problemas e espalhar soluções

 

Com envolvimento directo do pró-reitor Manuel Fontes de Carvalho e do assessor Albino Oliveira no contacto com os municípios, estes entendimentos "não têm qualquer fronteira regional", garante o líder da UP. "Temos andado pelo país fora. Não há feudos. Se uma Câmara qualquer vier ao Porto eu fico muito satisfeito", detalhou, notando ainda que "os municípios estão a abraçar com muito entusiasmo e interesse esta iniciativa".

 



As áreas da investigação e da inovação também fazem parte destes novos protocolos, visando potenciar junto das empresas as capacidades das universidades. Sebastião Feyo de Azevedo referiu que "haverá empresas que podem ter interesse em associar-se à Universidade, em financiar projecto de doutoramento e em promover estudos específicos nas suas áreas de actividade". Isto porque, se até há poucos anos as PME lhe respondiam ‘isso não é nada connosco, nós somos mais básicos’, hoje consegue ver outra postura nos pequenos e médios empresários.

 

Procurando um maior e melhor fluxo comunicacional e bidireccional entre as Universidades e as Câmaras para "pôr em contacto os problemas com as soluções", estes acordos prevêem ainda que as Câmaras passem a informar quais as competências mais procuradas pelas empresas locais e que a instituição de Ensino Superior deve desenvolver. Por outro lado, este canal directo servirá para a UP mostrar também os recursos de que dispõe e que podem ajudar aquele concelho, como, por exemplo, cursos de língua francesa nos municípios onde se estão a instalar multinacionais com origem na França.

Fazer "claramente" mais pelo Interior que a distribuição de vagas

O reitor da Universidade do Porto considera ao Negócios que estes acordos com um total de 58 municípios fazem "claramente" mais pelo Interior do país e pela integridade do território do que a redução de vagas proposta pelo Governo nas instituições de ensino superior públicas de Lisboa e Porto, com redistribuição noutras academias do país. "Aquilo nem é uma distribuição, foi um sinal político que o senhor ministro entendeu dar. Mas é um sinal que, para lhe ser franco, não tem nenhum impacto. Não se percebe", criticou Sebastião Feyo de Azevedo. Entretanto, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, veio dizer esta semana no Parlamento que apenas quis "[provocar] o debate sobre o processo (...) para perceber o que deve ser" e que afinal a decisão definitiva ainda não está tomada. Ainda assim, o reitor da UP salvaguardou que estes protocolos com as autarquias não são uma resposta ao Executivo socialista, até porque "isto começou muito antes" dessa ideia avançado pela tutela.




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mais votado Anónimo 08.03.2018

O comuno-socialismo luso, presente em todos os sindicatos e em muitos partidos de Portugal, obedece a uma intrigante lógica que agita a bandeira da educação mas que quando vê alguém que se educou e foi capaz de inovar ao ponto de fazer desaparecer onerosas e ineficientes carreiras que garantem postos de trabalho obsoletos pagos por contribuintes, consumidores, investidores e trabalhadores com real procura de mercado, levanta de imediato uma bandeira especial do trabalho e diz, em mau tom, ao inovador educado, para fugir do país ou mudar compulsivamente de ocupação abdicando dos potenciais rendimentos que adviriam da inovação conseguida. O comuno-socialismo é psicopata e criminoso. Uma verdadeira doença mental grave, perigosa para todo e qualquer processo de criação de valor.

comentários mais recentes
Anónimo 02.04.2018

As universidades de topo de sociedades e economias avançadas de topo, fazem gestão de recursos humanos com recurso a despedimento de excedentários ( https://www.sfgate.com/education/article/UC-Berkeley-to-eliminate-500-staff-jobs-7244049.php ) e canalizam recursos não só para investigação de topo como também para investimento de topo ( https://techcrunch.com/2015/12/15/university-of-california-launches-250-million-venture-fund ).

JCG 09.03.2018

(ii) nos estudantes, quer no empreendedorismo empresarial quer social, funcionando nas regiões em que estão incrustadas como centros privilegiados de geração e impulso de desenvolvimento económico e social. Para isso têm de envolver todos os sectores da comunidade. Câmaras, associações, etc

JCG 09.03.2018

(i) É evidente que as escolas superiores, especialmente as públicas, devem-se empenhar muito mais no desenvolvimento do país do que têm feito. E, para começar, contactar, falar, trocar opiniões e informações é positivo. Mas podem fazer muito mais. Por ex fomentar e estimular a atitude empreendedora

DECIDIDAMENTE, SÃO PROVINCIANOS 09.03.2018

SE ALGUÉM TINHA AINDA DÚVIDAS DA MENTALIDADE PROVINCIANA, TACANHA E PAROQUIAL DOS BIMBOS, AI ESTÁ PARA COMPROVAR ...

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