“O que mais constrange neste momento a economia é a falta de pessoas”
Com Portugal próximo do pleno emprego, António Ramalho e Gonçalo Moura Martins analisam os riscos que esse “bom problema” pode ter para a economia. Novo episódio do podcast Partida de Xadrez vai para o ar esta segunda-feira.
“O bom momento da economia portuguesa pode estar a ser limitado por não termos pessoas suficientes”, afirma António Ramalho no 46.º episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta segunda-feira no site do Negócios e nas principais plataformas.
Portugal está hoje em máximos históricos de população empregada, num total de 5,3 milhões de pessoas, e com a mais baixa taxa de desemprego dos últimos 23 anos. Vários setores queixam-se de falta de mão-de-obra, mas a nova política de imigração, com regras mais apertadas, e o inverno demográfico ameaçam agravar a situação. Para o gestor, este é “aparentemente um bom problema”, mas “cria um enorme desafio, que é resolvê-lo de uma forma equilibrada para a sociedade”. O dilema, diz, é que “por um lado temos possibilidade de acelerar o nosso crescimento, mas por outro estamos muito sobreaquecidos e não temos capacidade de contratar”.
“O que mais constrange neste momento a economia não é a falta de dinheiro ou de crédito, é a falta de pessoas”, diz.
Salientando que nunca houve uma força laboral tão intensa em Portugal como agora, Gonçalo Moura Martins sublinha que “o saldo de entradas e saídas da população ativa é praticamente neutro e nos últimos dois anos já foi negativo”, frisando que “o preenchimento de toda esta nova criação de emprego foi feito através da imigração”, razão pela qual a considera “absolutamente incontornável”. “Temos que a controlar, integrar e fazer muito melhor”, diz, sublinhando que “a economia está a expandir-se, o emprego está a crescer, está-se a pagar melhor, mas a alimentação desse crescimento só é possível fazer-se com a imigração, que deve ser gerida de forma “muito inteligente”. O gestor recorda que “nos anos 90 e já no início deste século o problema era o desemprego, agora temos um novo problema que é o emprego”.
O gestor não tem dúvidas que há já hoje uma canibalização dentro da Europa por talento europeu, antecipando que “vai haver uma luta por mão-de-obra mais ou menos qualificada”. Já António Ramalho refere que “não são as 40 ou 50 mil pessoas que saem por ano que vão resolver este problema” e antecipa, em termos de concorrência pelo talento europeu, que “se neste momento isso se vê em áreas específicas, a escassez de mão-de-obra vai alastrar-se a outras áreas profissionais mais qualificadas”, como a saúde.
Por isso, relativamente à imigração, salienta que é necessário fazer um esforço para que “conjugadamente com as medidas de controlo que foram feitas haja agora medidas inteligentes para fazer a seleção natural de modelos de imigração”.
Gonçalo Moura Martins recorda que um grande objetivo da União Europeia é ter 78% da população em idade ativa a trabalhar, mas “é difícil de lá chegar”. Por essa razão aponta ações relativamente à inatividade de alguns grupos marginais, como a baixa participação das mulheres no mercado de trabalho. A isso António Ramalho acrescenta “a parte que menos gente vai gostar”: o alargamento da idade em que a população fica ativa. “O tempo de uma sociedade que desenhámos em que as pessoas estavam um tempo a aprender, depois trabalhavam e no final descansavam morreu”. Moura Martins acrescenta que “já existem mecanismos legais incentivadores, mas que ainda podem ser melhorados do ponto de vista fiscal, para as pessoas continuarem a trabalhar a tempo inteiro”. “As empresas não querem que as pessoas vão embora”, garante.
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