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Bolsa angolana diz que nomeação de filha de João Lourenço é um "regresso a casa"

O jornalista e ativista cívico angolano Rafael Marques considerou hoje a nomeação da filha do Presidente angolano para um cargo público como "uma distração evitável e corrigível", referindo que o processo, que não considerou nepotismo, "é desaconselhável".

#17 - João Lourenço
Lusa 20 de Agosto de 2020 às 12:47
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A Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) disse hoje que a nomeação para administradora executiva de Cristina Lourenço, filha do Presidente angolano, João Lourenço, se trata de "um regresso a casa" daquela antiga colaboradora da instituição.

Numa nota de imprensa distribuída hoje, a que agência Lusa teve acesso, a BODIVA realça que a nomeação em março passado de Cristina Lourenço, surgiu da necessidade de completar a composição do Conselho de Administração, na sequência da resignação de um dos seus administradores.

O documento sublinha que "o percurso e empenho enquanto colaboradora da BODIVA, entre 2014 e 2016, e a capacidade de gestão demonstrada no processo de criação e implementação de uma unidade de estrutura do Ministério das Finanças, estiveram na base da decisão desta comissão de convidar um antigo quadro para assumir a função".

"Um regresso à casa", destaca a nota, lembrando que, à exceção do seu presidente, a comissão executiva em funções desde novembro de 2019 é composta exclusivamente por quadros da BODIVA, "de competência académica e sobretudo profissional comprovada, que desde a sua constituição dedicaram e dedicam o seu saber, aptidão e zelo em prol da consolidação do mercado de capitais angolano".

"Relativamente aos procedimentos legais, importa referir que, enquanto sociedade anónima de domínio público, que se rege pelas normas aplicáveis às sociedades anónimas, os membros dos órgãos sociais, no qual se inclui o Conselho de Administração, são eleitos por deliberação unânime em sede da mesa da Assembleia-Geral", salienta a BODIVA.

Esta nota surge depois de recentes notícias sobre o poder político em Angola, publicadas pelo Jornal de Negócios, que tem merecido críticas em vários círculos sociais do país por aquilo que é classificado como um "alegado ato de nepotismo".

Muitos associam a questão aos atos praticados anteriormente pelo ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos, que nomeou filhos, como Isabel dos Santos e José Filomeno "Zenu" dos Santos, para cargos públicos.

No despacho n.º 2260/20, de 05 de maio, o Ministério das Finanças confirma a dispensa de Cristina Giovana Dias Lourenço, onde é técnica superior de 2.ª classe, para dirigir os departamentos de Finanças e Património e de Comunicação e Intercâmbio da Bolsa angolana.

"Distração evitável e corrigível"

O jornalista e ativista cívico angolano Rafael Marques considerou hoje a nomeação da filha do Presidente angolano para um cargo público como "uma distração evitável e corrigível", referindo que o processo, que não considerou nepotismo, "é desaconselhável".

"Primeiro, é preciso esclarecer que não é uma nomeação feita pelo Presidente, aliás a filha de João Lourenço, já antes de ele ser Presidente, exercia uma função no Ministério das Finanças. Mas do ponto de vista da opinião pública seria de todo aconselhável que a ministra das Finanças, responsável pela nomeação, não a fizesse", disse Rafael Marques em declarações à Lusa.

Para o ativista, que entende que o cargo "não trará mais-valia à Bodiva ou à carreira da filha do Presidente da República angolano", o ideal era Cristina Dias Lourenço "demitir-se do cargo para salvaguardar a imagem do pai", João Lourenço.

"O problema resolve-se e ela [Cristina Dias Lourenço] até para salvaguardar a imagem do pai pode apresentar a título pessoal a sua demissão", defendeu.

Segundo o ativista e presidente da organização não-governamental (ONG) angolana Ufolo -- Centro de Estudos para a Boa Governação, "não se está perante um caso de nepotismo, porque não é de nomeação".

"Ela [filha do PR angolano] exerce um cargo, como há outros familiares do Presidente que exercem cargos no aparelho público", notou.

Por isso, frisou: "Não acho que isso fragilize as ações de combate à corrupção e o nepotismo, mas em termos de opinião pública é desaconselhável".

Rafael Marques admitiu que a questão que considera "evitável e corrigível", pode "reavivar traumas do passado" em Angola no que diz respeito à nomeação de familiares de dirigentes para cargos públicos.

"Isso pode encorajar governadores e ministros a fazerem o mesmo, a nomearem seus parentes, mas também é preciso lembrar que ela já exercia uma função no Ministério das Finanças e não foi contestada porque era uma função de pouca visibilidade", salientou.

Questionado se filhos de políticos não deveriam ocupar cargos públicos, Rafael Marques respondeu que as decisões "dependem das circunstâncias", afirmando, no entanto, que pessoas com carreira na função pública "não devem ser prejudicadas por causa dos seus pais".

"Mas, penso ser uma distração evitável e isso corrige-se. A Cristina pode dar um grande exemplo de apoio ao pai, apresentando a sua demissão", realçou.

O jornalista angolano disse ainda existirem muitos setores da sociedade angolana, "inclusive dentro do Governo e do MPLA", partido no poder, e no exterior do país que "apostam no insucesso" de João Lourenço, "por tocar em muitos interesses instalados nacionais e estrangeiros".

"Inclusive de muitos interesses portugueses instalados em Angola que estavam habituados aos grandes esquemas de corrupção", apontou.

E, acrescentou: "As pessoas vão pegar qualquer questão irrelevante, de repente as pessoas descobriram que a Bodiva faz uma grande coisa".

Quanto aos angolanos "querem mudança", sendo "fundamental que se aconselhe o Presidente e sua família a evitarem essas distrações", rematou.

O combate à corrupção tem sido uma bandeira do Governo de João Lourenço, no poder há três anos, mas que é criticado por alguns setores por alegadamente fazer uma escolha seletiva dos alvos da justiça, nomeadamente familiares do seu antecessor, José Eduardo dos Santos.
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