Carney vê ameaças de tarifas de Trump como tática de negociação comercial
"Em breve, iniciaremos negociações para uma revisão do nosso acordo com os Estados Unidos e o México (USMCA) [e] o Presidente [Trump] é um negociador aguerrido (...). Penso que alguns comentários e tomadas de posição precisam de ser encarados nesse contexto mais amplo", declarou o primeiro-ministro canadiano.
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O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, desvalorizou esta segunda-feira as recentes ameaças do Presidente norte-americano, Donald Trump, de impor ao Canadá tarifas aduaneiras de 100%, considerando tratar-se sobretudo de uma estratégia de negociação comercial.
"Em breve, iniciaremos negociações para uma revisão do nosso acordo com os Estados Unidos e o México (USMCA) [e] o Presidente [Trump] é um negociador aguerrido (...). Penso que alguns comentários e tomadas de posição precisam de ser encarados nesse contexto mais amplo", declarou Mark Carney.
Trump ameaçou no sábado impor "tarifas aduaneiras de 100%" às importações canadianas para o país, caso o Canadá firmasse um acordo comercial com a China, depois de Mark Carney ter anunciado um acordo preliminar em meados de janeiro em Pequim.
No dia da assinatura desse acordo, 16 de janeiro, Trump afirmou que se Carney "pudesse concluir um acordo comercial com a China, deveria fazê-lo".
Segundo o chefe do Governo canadiano, a revisão do Acordo de Cooperação Económica dos Estados Unidos (USMCA), cuja pertinência Donald Trump recentemente questionou, será uma oportunidade para o submeter a uma "análise rigorosa".
O México, os Estados Unidos e o Canadá estão desde 1994 ligados por um acordo de comércio livre, inicialmente conhecido como NAFTA e, desde 2020, data da sua última renegociação, ocorrida durante o primeiro mandato presidencial de Trump (2017-2021), como USMCA.
De forma muito estreita economicamente ligados aos Estados Unidos, o Canadá e o México estão a ser ameaçados pela vasta ofensiva protecionista mundial lançada pelo chefe de Estado norte-americano no seu segundo mandato na Casa Branca (2025-2029).
Continuam, contudo, protegidos graças a este acordo de comércio livre, razão da importância fundamental da sua próxima renegociação.
O primeiro-ministro canadiano foi também hoje questionado sobre o uso de Donald Trump, pela primeira vez no sábado, do termo "governador" para o designar, à semelhança do que regularmente fazia com o seu antecessor, Justin Trudeau.
"No meu cargo, sou designado de muitas formas", relativizou Carney, acrescentando: "Não vou comentar cada Tweet ou Truth (referindo-se a mensagens publicadas na rede social X e na rede social do próprio Trump, Truth Social)".
Desde que regressou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o Presidente republicano passou a referir-se a Trudeau como "governador" para o humilhar e reiterar o seu desejo de transformar o Canadá no 51.º estado norte-americano.
Chegado ao poder dois meses depois, em março, Mark Carney tinha até agora escapado a esta tática, mas desde o seu discurso no Fórum Económico Mundial de Davos, Suíça, na semana passada, o tom de Trump tem vindo a tornar-se mais duro.
Sobre esse discurso, o chefe do executivo canadiano afirmou que apenas mostrou como o Canadá vê o mundo.
"É um reconhecimento de que o mundo mudou. Algo que os canadianos compreenderam há meses. O Canadá entendeu a magnitude da mudança na política comercial dos Estados Unidos e o que isso significa para a nossa economia. Compreendemo-lo muito antes de outros países", sublinhou.
O acordo comercial preliminar assinado em janeiro entre Otava e Pequim, classificado pelo primeiro-ministro canadiano como "histórico", visa "eliminar as barreiras comerciais e reduzir as tarifas".
Prevê, por exemplo, a entrada de 49.000 veículos elétricos fabricados na China no Canadá com tarifas preferenciais de 6,1%, indicou.
Carney observou ainda que as ameaças de Trump de aumentar para 100% as tarifas aduaneiras impostas ao Canadá, caso assine um acordo comercial com a China, são um sinal de que Washington quer reforçar os laços económicos.
Insistiu que o Canadá não pretende um acordo de comércio livre com a China e que, de acordo com o USMCA, se quisesse firmar um, teria primeiro de notificar os Estados Unidos e o México.
"Se estivéssemos a considerar isso - o que não estamos e nunca estaremos -, já os teríamos notificado", concluiu.
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