Roubini vê "probabilidade superior a 50% de uma escalada" no conflito do Médio Oriente
Economista alerta para riscos de estagflação e acredita que BCE até pode fazer duas subidas de juros, em abril e junho.
Nouriel Roubini, economista conhecido por ter previsto a crise financeira de 2008, afirmou que é mais provável que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensifique a ofensiva no Irão, com o objetivo de alcançar uma vitória, do que recuar e, assim, arriscar-se a consequências ainda piores para a economia e a ordem mundial.
"É menos provável que ocorra uma escalada e se perca do que uma escalada e se ganhe, mas é um risco considerável. O meu ponto de partida é que existe uma probabilidade superior a 50% de que ocorra uma escalada", afirmou Roubini numa reunião de economistas e líderes empresariais no Lago Como, em Itália, citado pela imprensa espanhola.
Para o também Nobel da Economia, "as pessoas argumentam que as sondagens [de Trump] estão a descer, querem que esta guerra termine porque haverá danos para a economia, o crescimento, a inflação... Mas se pensarmos bem, o mal já está feito". Nesse sentido, refere, "se houver um cessar-fogo ao estilo iraniano, Donald Trump ficará como um perdedor: a sua credibilidade enfraquecerá e perderá as eleições com certeza".
"O meu argumento é que, embora pareça contraintuitivo, [Trump] vai intensificar o conflito. Fá-lo-á tomando o controlo da ilha de Kharg, continuando os bombardeamentos, em conjunto com Israel, contra a liderança iraniana e as estruturas militares", resumiu o economista na sua análise.
"É mais provável que, se os Estados Unidos e Israel agravarem a situação, se verifique um colapso do regime [iraniano] e, consequentemente, um resultado mais favorável a médio prazo, mesmo que, a curto prazo, o preço do petróleo suba", afirmou Roubini citado nos jornais espanhóis. "Assim, Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, têm um incentivo para agravar a situação e tentar sair vencedores", declarou.
De novo a estagflação
Para o também conhecido por "Dr. Doom", caso Trump intensifique o conflito surge um outro cenário em que os iranianos continuam a bloquear o estreito de Ormuz ou atacar as instalações petrolíferas do Golfo, algo que poderia desencadear "uma estagflação como a dos anos 70".
No seu estilo realista de olhar para o contexto económico, o Nobel da Economia lembrou ainda " a guerra termine amanhã, os preços do petróleo não voltarão a ser os de antes". Ainda assim, frisou, um aumento de 10% a 15% "não seria trágico" para o contexto económico global.
BCE deverá subir juros em abril e junho
Questionado sobre o impacto na política monetária, Roubini afirmou que o BCE provavelmente terá de aumentar as taxas de juro "em abril e talvez até em junho", tal como o Banco de Inglaterra.
A Reserva Federal poderá também vir a encontrar-se numa posição difícil, afirmou Roubini. Os responsáveis políticos poderão ser forçados a subir as taxas "para evitar o risco de as expectativas de inflação ficarem desancoradas".
"Em 2022, a Fed quase perdeu a sua credibilidade" quando demorou a aumentar as taxas de juro, afirmou Roubini, e destacou a mudança de liderança, com Kevin Warsh a substituir Jerome Powell à frente da instituição em maio. "O novo presidente da Fed não pode destruir a sua reputação no início do seu mandato" e poderá não ter outra escolha senão aumentar as taxas, defendeu.