Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Dívida pública domina segundo debate entre Seguro e Costa

No dia em que o líder socialista e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa realizaram o segundo debate da campanha para as primárias do partido, a dívida do Estado esteve em foco. E as promessas aos portugueses também.

Paulo Duarte/Negócios
Carla Pedro cpedro@negocios.pt 10 de Setembro de 2014 às 21:47
  • Assine já 1€/1 mês
  • 85
  • ...

"Nunca deixei de andar de Norte a Sul, conhecendo melhor o nosso país", disse António José Seguro no segundo debate com António Costa na campanha para as eleições primárias do PS, marcadas para o próximo dia 28. "Fizeste muitos quilómetros", interrompeu o autarca de Lisboa. O secretário-geral do PS continuou: "Não estive à janela do município a ver qual era a minha oportunidade". "À janela?", contrapôs Costa. "Os autarcas andam no terreno, a conhecer as pessoas, com os pés na terra!"

 

O debate foi inflamado. Mas, no fim, Costa deu os parabéns a Seguro "por hoje não ter feito campanha com base em ataques pessoais". No entanto, que os houve, houve.

 

António Costa sublinhou mais do que uma vez, durante o debate, que não se candidata "apenas às primárias": "Candidato-me também para disputar as legislativas daqui a um ano". E centrou o seu discurso na necessidade de Portugal sair da "camisa-de-forças" em que se encontra. O que só será possível "quando tivermos uma economia sã". "Temos de ter um programa de fisioterapia que permita fazer a inversão para o crescimento económico".

 

Já Seguro salientou que quer um Estado com bons serviços públicos, boa escola pública, boa protecção social e bons cuidados de saúde. Mas "não quero ser primeiro-ministro a qualquer custo", salientou, quando questionado sobre as possíveis aproximações políticas do partido para uma eventual formação de governo.

 

"Lutaremos por uma maioria absoluta e queremos criar condições para o envolvimento político de todas as forças sociais. Mas se não houver maior absoluta (...) não farei acordo com quem quer sair do euro ou desmantelar as funções sociais do Estado. Não quero ser primeiro-ministro a qualquer custo".

 

Seguro defende mutualização da dívida,

Costa diz que essa questão se colocará no momento próprio

 

A dívida pública foi um dos pontos mais debatidos pelos dois socialistas. António José Seguro defendeu a mutualização da dívida e disse, criticando António Costa, que "é impossível ser candidato a primeiro-ministro e não ter uma posição clara sobre a dívida. Eu fui claro e já apresentei propostas". E acrescentou: "Desde o momento em que Mario Draghi [presidente do BCE] tomou decisões, as taxas de juro baixaram. Eu disse isso desde muito cedo e depois todos bateram palmas a Draghi".

 

"O Costa dizia ontem que não se podia comprometer com propostas concretas. E há a questão fundamental que diz respeito à divida publica. Temos um problema gravíssimo com a dívida, a pagar juros elevadíssimos, e não compreendo como é que um candidato que quer ser primeiro-ministro não o considera um ponto prioritário", frisou Seguro.

 

Costa respondeu, dizendo que "a questão da dívida colocar-se-á no momento próprio". E deu o exemplo dos "franceses e italianos, que apostam agora (e com a concordância da Comissão Europeia) em reforçar a capacidade de liquidez pelo aumento dos fundos disponíveis e não pela redução da dívida".

 

Seguro interrompeu, salientando que "essa argumentação é em parte a do governo português". "E este é um governo que se ajoelhou. A União Económica e Monetária A UEM só é económica no nome, ela é apenas monetária. Tem de haver capacidade orçamental no seio da Zona Euro. E necessária resposta comum, que é através da mutualização da dívida".

 

António Costa, por seu lado, disse ser "euroexigente" e defendeu que Portugal "não pode continuar a ter uma posição fraca na Europa", reiterando assim que "temos de ter um reforço dos mecanismos de compensação das desigualdades. Os fundos estruturais têm de ser reforçados". "Eu sou europeísta, mas o ideal europeu está a ser traído e não gosto da Europa que vejo. A crise começou em 2008, fora da Europa, e neste momento é uma crise da Europa", acrescentou. "Sobre a natureza e origem da crise, afinal partilhamos o mesmo ponto de vista", disse o autarca de Lisboa ao líder socialista.

 

Para Seguro, por seu turno, "é muito importante que os portugueses saibam com antecedência quais são as bases programáticas. O próximo governo tem de ser de projecto e de alternativa. Dizemos ao país um ano antes de haver eleições que estamos preparados para governar Portugal e que apostamos em cinco vertentes: criar riqueza e emprego, recuperar o rendimento dos portugueses, reformar o Estado, ter voz firme na Europa e ter capacidade para garantir as funções sociais do Estado".

 

Já Costa deu uma "alfinetada", declarando que "o Seguro tem muitas vezes uma visão de que tudo gira à volta dele". E apontou o contrato de confiança apresentado pelo secretário-geral, num programa com 80 propostas, que afinal "é um documento do partido". "Várias dessas são banais, como a 76, que não é original. Há outras medidas muito ambíguas, como a reforma da lei eleitoral. É uma prioridade do PS desde 1985", disse. "Destas 80 propostas, só seis propostas e meia é que não constavam do programa eleitoral de 2009", salientou, afirmando que "estas ideias que aqui estão não são do Seguro, fazem parte do património histórico do PS".

 

O líder do PS respondeu, dizendo que "o contrato de confiança foi preparado por muitos milhares de portugueses". "Fica-te mal apoucar esse conteúdo", assinalou. E deu como exemplo o programa de reindustrialização, "que é uma coisa completamente nova. Não só dizemos onde queremos chegar e como queremos lá chegar. A economia só cresce se tiver um motor que não gripe e para isso propomos o programa de reindustrialização".

 

Costa, entretanto, voltou "à carga" na questão dos fundos estruturais: "É pena que o PS não tenha sido capaz de dar prioridade aos fundos comunitários. Foi pena que Seguro não o tivesse feito". O autarca deu como bom exemplo de crescimento no país os casos de sectores como têxtil, calçado e alimentar, "que estão a dar cartas graças ao notável trabalho de reconversão dos sectores na última década e meia". Disse que o programa Startup Lisboa, que está a ser levado a cabo na capital, é o que pretende fazer em todo o país.

 

O autarca considerou ainda que Seguro acaba por gastar mais energia na oposição aos anteriores governos do PS do que ao actual.

 

Sobre a "acusação" de parecer querer rejeitar o passado do PS, Seguro disse que não o faz, mas que também não traz "nenhum passado de volta". E afirmou que, "com esta política de empobrecimento, o governo vai continuar a cortar despesa útil ou a aumentar impostos, porque não tem solução". "Temos de ter programa credível, mas chega de exigir mais sacrifícios sobre os portugueses".

 

O presidente da CML replicou, dizendo que Segurou " entendeu assumir a explicação que a Direita deu, por razões puramente internas, e com isso ficou refém da agenda da Direita: ou se sobe impostos ou se corta salários".

 

Seguro tentou interromper, mas Costa falou mais alto: "tenho-te ouvido com evangélica paciência. Não deixas os outros falar". "Estive três meses à espera que aceitasses este debate", respondeu-lhe o líder do PS.

 

A crise interna e o apontar de dedos

 

Na parte final deste debate na SIC, António Costa frisou que "o PS, nas eleições europeias, ficou muito aquém do que o país necessita. O resultado deixou-o longe de uma maioria absoluta ou de uma posição forte numa coligação".

 

Seguro não se deixou ficar: "Nós recuperámos 75% nas sondagens e se continuássemos com a mesma cadência estaríamos no limiar da maioria absoluta. O problema foi o que tu criaste".

 

"Os portugueses podem confiar num primeiro-ministro que diz uma coisa antes das eleições e que depois faz outra no governo. Não aumentarei a carga fiscal", garantiu Seguro nas suas alegações finais. "Tenho um projecto de mudança de rumo para nosso país, que não pode continuar no rumo do empobrecimento. Só criando riqueza é que conseguimos combater o desemprego, defender as funções sociais do Estado e reduzir a nossa dívida pública. E não podemos misturar política com negócios, há também que mudar a forma de fazer política".

 

Já Costa quis sublinhar que "não há soluções mágicas" e que a sua atenção estará centrada nas empresas, no desemprego e na garantia de que pensões serão pagas. "Para isso, precisamos de um PS mais forte e de uma liderança mais forte. Até dia 12 inscrevam-se para participar nestas eleições primárias. Há que saber quem está em melhores condições para liderando o PS e liderar o governo", rematou o autarca de Lisboa.

 

Recorde-se que as eleições primárias do PS, agendadas para 28 de Setembro, vão escolher o candidato do partido a primeiro-ministro e colocam frente-a-frente António Costa e António José Seguro. As sondagens indicam que Costa vence com ampla margem o actual secretário-geral do partido.

 

(notícia actualizada às 22h56)

 

Ver comentários
Saber mais António José Seguro António Costa política PS
Mais lidas
Outras Notícias