Maria, a mulher “muito firme” e “profundamente cristã”, está a caminho de Belém
Está ligada ao PS desde 1976 e tem uma personalidade discreta. Mas a própria garante que é “muito firme”. Podia ter sido médica mas formou-se em Direito. Foi a primeira mulher a liderar o PS e quer ser a primeira em Belém.
A ex-ministra da Saúde de António Guterres não é médica. Porque não quis, e porque na altura "exercia-se uma enorme pressão sobre as raparigas", sobretudo "nas aulas de Anatomia". "Assustavam-nos com os cadáveres, com partes de cadáveres que metiam no bolso das batas", recordou, numa entrevista concedida ao Negócios em 2010. Acabou por seguir para Direito. "Era a época da importância do Direito como construtor da justiça", acrescentou, há cinco anos.
Maria de Belém tem hoje 66 anos (feitos há menos de um mês, a 28 de Julho), e vai concorrer à Presidência da República. Se conseguir, será a primeira mulher a ocupar o mais alto cargo da Nação. A tarefa não é fácil, até porque na área do PS terá de enfrentar António Sampaio da Nóvoa, que António Costa já deu a entender que deverá apoiar. O empresário Henrique Neto também está na corrida.
Apesar de não ter sido médica, acabaria por ser na área da Saúde que se destacaria, e chegaria ao Governo: primeiro como chefe de gabinete do ministro Maldonado Gonelha, em 1984. Depois como ministra, pela mão do seu amigo António Guterres, em 1995. Maria de Belém não queria, mas a mulher do ex-primeiro-ministro, que era médica, convenceu-a. Maria de Belém fora administradora do IPO (Instituto Português de Oncologia) entre 1992 e 1995.
Apesar de um perfil do Público em 2012 a descrever como uma diplomata, conciliadora e gestora de relações humanas, também lhe apontava dureza e capacidade de dar respostas implacáveis. Ao Negócios, Maria de Belém auto-avaliou-se: "sou muito firme, mas não sou impositiva. Respeito muito as opiniões dos outros, mas as minhas são muito fortes".
Mas as questões sociais e de igualdade acabariam por também marcar a sua carreira. Começou a trabalhar em 1973 como técnica jurista no Ministério das Corporações e Previdência Social (actual Ministério da Segurança Social) e foi assessora de diversos ministérios nas áreas dos assuntos sociais, trabalho e saúde. O que a enche de orgulho, por ter participado "no que foram as grandes transformações na Segurança Social, na legislação do Trabalho e na Saúde".
"Lembro-me de diplomas que fiz no tempo do Governo da engenheira Maria de Lurdes Pintasilgo, em 1979, que se mantiveram até ao Código de Trabalho de Bagão Félix. Foram redigidos por mim como jurista", recordou, na referida entrevista ao Negócios. "[Sinto] que construí, que fui obreira". Chegou a ser vice-provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
A primeira mulher a presidir ao PS
É militante do PS desde 1976 e tornou-se, em 2012, a primeira mulher a presidir ao partido, após convite do então secretário-geral António José Seguro. Nunca foi muito próxima de José Sócrates, lê-se num perfil que o Público lhe traçou há três anos, o que pode ter ajudado à escolha de Seguro.
Maria de Belém é também uma católica praticante. "Sou profundamente cristã. Acredito na mensagem de Cristo, não só como religião mas como filosofia. É uma das grandes revoluções da Humanidade", defendeu, em 2010, entrevistada por Anabela Mota Ribeiro. É amiga do padre Vítor Melícias, que casou a sua única filha (na altura com 29 anos) em Setembro do ano passado.