Em 30 anos, agricultura perdeu metade dos trabalhadores a tempo inteiro, mas duplicou produtividade
Nos últimos 30 anos, o universo de trabalhadores a tempo integral na agricultura foi "ceifado" em mais de metade, mas o valor gerado pelo setor aumentou, "permitindo que a produtividade mais do que duplicasse, como "reflexo da mecanização, da modernização das explorações e da reorganização empresarial que se tem vindo a registar".
Esta é uma das conclusões do estudo "Evolução do Trabalho na Agricultura", levado a cabo pela Consulai e apresentado esta quarta-feira.
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Segundo os dados extraídos de fontes oficiais, compilados pela consultora especializada em "agribusiness", "desde 1995, o volume de trabalho da mão-de-obra agrícola [em Portugal é medido em Unidades de Trabalho Anual (UTA) representando o trabalho equivalente a um trabalhador a tempo inteiro durante um ano] caiu de mais de 430 mil para cerca de 220 mil unidades", enquanto a "produtividade agrícola mais que duplicou, passando de cerca de 7.800 para 21.600 euros por UTA (+175%), espelhando "maior eficiência e valor gerado com menos mão-de-obra".
O Valor Acrescentado Bruto (VAB) "permaneceu estável até 2015 e cresceu de forma expressiva na última década", atingindo 3.362 milhões de euros em 2023, refere a consultora.
"A evolução inversa destas variáveis demonstra que a produtividade do trabalho agrícola aumentou significativamente, impulsionada pela mecanização, irrigação, especialização e gestão empresarial mais profissional", sinaliza a Consulai, apontando a que a relação entre o Produto Interno Bruto (PIB) agrícola e o emprego confirma "uma transformação profunda": "menos trabalho, mais valor".
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A Consulai sinaliza que o emprego agrícola "não desapareceu", mas que antes "se transformou", tendo o número de pessoas empregadas aumentado de cerca de 165 mil em 2015 para 180 mil em 2023, representando 4,7% do emprego nacional. E - aponta - "a tendência indica estabilização após anos de declínio, refletindo a resiliência do setor num contexto de escassez e envelhecimento da mão-de-obra", dado que a idade média aumentou de 46 anos em 1989 para 59 em 2023.
A divergência entre o universo de pessoal ao serviço e UTA explica-se pelo crescimento do trabalho parcial, sazonal e temporário, que aumenta o número de pessoas empregadas, mas reduz o volume anual de trabalho devido à mecanização e à substituição do trabalho familiar permanente por mão-de-obra flexível, esclarece a consultora.
A viticultura e a produção agrícola e animal combinada concentram o maior número de trabalhadores, enquanto crescem os serviços agrícolas especializados que a Consulai identifica como um "sinal de profissionalização e diversificação das atividades".
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As microempresas (com menos de dez pessoas) predominam, embora haja um aumento do peso das médias e grandes explorações, "evidenciando maior concentração e eficiência produtiva em fileiras orientadas para exportação".
A modernização das explorações foi uma das razões que permitiu produzir mais com menos trabalhadores, abrindo caminho assim "a uma transformação estrutural do emprego no setor", que tem assistido a um declínio da mão de obra familiar e a uma ascensão do trabalho assalariado, que, em 2023, passou a representar quase 40% do total.
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Se, por um lado, "a mão-de-obra familiar diminuiu mais de 50% em 30 anos, marcada pelo envelhecimento e falta de sucessão geracional", apesar de ainda ser dominante, por outro, a vinda de fora "aumentou significativamente após 2013, impulsionada pelo crescimento do trabalho sazonal e da prestação de serviços".
Já os salários agrícolas registaram uma valorização real de 50,9% na última década, saltando de 660,85 para 997,38 euros em 2023, à luz do mesmo estudo.
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Só que, ressalva a consultora, apesar de "este ritmo de crescimento superar o desempenho médio da economia nacional (+43,9%)", a remuneração média mantém-se "muito abaixo dos 1.742 euros registados a nível nacional".
O estudo identifica ainda "fortes assimetrias regionais" na agricultura portuguesa. O Alentejo concentra mais de metade da área agrícola (54,7%), mas apenas 11,3% da mão-de-obra, refletindo um modelo altamente mecanizado. Em contraste, regiões como Algarve e Oeste destacam-se pela elevada intensidade produtiva e maior necessidade de trabalho, com produtividades superiores a 5.200 euros por hectare.
Num comentário que acompanha o estudo, o diretor-geral da Consulai, Pedro Santos, realça que "nos últimos anos, a agricultura portuguesa protagonizou uma transformação estrutural notável, tornando-se mais produtiva, mais profissional e cada vez mais tecnológica", para contrapor que, "paradoxalmente, esta evolução não foi acompanhada por um reforço do prestígio social do setor" .
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"Pelo contrário, vieram ao de cima fragilidades já existentes que hoje assumem um caráter crítico e condicionam a sua sustentabilidade e competitividade, desde a escassez de mão de obra à dificuldade em atrair talento qualificado e jovem", frisa.
E, neste sentido, "a agricultura em Portugal dependerá da nossa capacidade de qualificar pessoas, integrar tecnologia e valorizar o trabalho agrícola", complementa, citado na nota que acompanha o estudo.
"Sem uma resposta clara, assente na renovação geracional, em políticas públicas eficazes e realistas, em mais capacitação e organização da produção e do setor, corremos o risco de perdermos o dinamismo conquistado, precisamente num momento em que mais precisamos de o consolidar e projetar no longo prazo", conclui.
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