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Em 30 anos, agricultura perdeu metade dos trabalhadores a tempo inteiro, mas duplicou produtividade

Declínio acentuado da mão-de-obra familiar na agricultura deu lugar à ascensão do trabalho assalariado, que passou a representar perto de 40%. Salários subiram 50% na última década, mas continuam abaixo abaixo da média nacional.

Pedro Miguel Santos, diretor geral da Consulai
Pedro Miguel Santos, diretor geral da Consulai Sérgio Lemos
25 de Março de 2026 às 19:21

Nos últimos 30 anos, o universo de trabalhadores a tempo integral na agricultura foi "ceifado" em mais de metade, mas o valor gerado pelo setor aumentou, "permitindo que a produtividade mais do que duplicasse, como "reflexo da mecanização, da modernização das explorações e da reorganização empresarial que se tem vindo a registar".

Esta é uma das conclusões do estudo "Evolução do Trabalho na Agricultura", levado a cabo pela Consulai e apresentado esta quarta-feira.

Segundo os dados extraídos de fontes oficiais, compilados pela consultora especializada em "agribusiness", "desde 1995, o volume de trabalho da mão-de-obra agrícola [em Portugal é medido em Unidades de Trabalho Anual (UTA) representando o trabalho equivalente a um trabalhador a tempo inteiro durante um ano] caiu de mais de 430 mil para cerca de 220 mil unidades", enquanto a "produtividade agrícola mais que duplicou, passando de cerca de 7.800 para 21.600 euros por UTA  (+175%), espelhando "maior eficiência e valor gerado com menos mão-de-obra".

O Valor Acrescentado Bruto (VAB) "permaneceu estável até 2015 e cresceu de forma expressiva na última década", atingindo 3.362 milhões de euros em 2023, refere a consultora.

"A evolução inversa destas variáveis demonstra que a produtividade do trabalho agrícola aumentou significativamente, impulsionada pela mecanização, irrigação, especialização e gestão empresarial mais profissional", sinaliza a Consulai, apontando a que a relação entre o Produto Interno Bruto (PIB) agrícola e o emprego confirma "uma transformação profunda": "menos trabalho, mais valor".

A Consulai sinaliza que o emprego agrícola "não desapareceu", mas que antes "se transformou", tendo o número de pessoas empregadas aumentado de cerca de 165 mil em 2015 para 180 mil em 2023, representando 4,7% do emprego nacional. E - aponta - "a tendência indica estabilização após anos de declínio, refletindo a resiliência do setor num contexto de escassez e envelhecimento da mão-de-obra", dado que a idade média aumentou de 46 anos em 1989 para 59 em 2023.

A divergência entre o universo de pessoal ao serviço e UTA explica-se pelo crescimento do trabalho parcial, sazonal e temporário, que aumenta o número de pessoas empregadas, mas reduz o volume anual de trabalho devido à mecanização e à substituição do trabalho familiar permanente por mão-de-obra flexível, esclarece a consultora.

A viticultura e a produção agrícola e animal combinada concentram o maior número de trabalhadores, enquanto crescem os serviços agrícolas especializados que a Consulai identifica como um "sinal de profissionalização e diversificação das atividades". 

Declínio do modelo familiar

As microempresas (com menos de dez pessoas) predominam, embora haja um aumento do peso das médias e grandes explorações, "evidenciando maior concentração e eficiência produtiva em fileiras orientadas para exportação".

A modernização das explorações foi uma das razões que permitiu produzir mais com menos trabalhadores, abrindo caminho assim "a uma transformação estrutural do emprego no setor", que tem assistido a um declínio da mão de obra familiar e a uma ascensão do trabalho assalariado, que, em 2023, passou a representar quase 40% do total.

Se, por um lado, "a mão-de-obra familiar diminuiu mais de 50% em 30 anos, marcada pelo envelhecimento e falta de sucessão geracional", apesar de ainda ser dominante, por outro, a vinda de fora "aumentou significativamente após 2013, impulsionada pelo crescimento do trabalho sazonal e da prestação de serviços".

Salários crescem, mas continuam abaixo da média

os salários agrícolas registaram uma valorização real de 50,9% na última década, saltando de 660,85 para 997,38 euros em 2023, à luz do mesmo estudo.

Só que, ressalva a consultora, apesar de "este ritmo de crescimento superar o desempenho médio da economia nacional (+43,9%)", a remuneração média mantém-se "muito abaixo dos 1.742 euros registados a nível nacional".

O estudo identifica ainda "fortes assimetrias regionais" na agricultura portuguesa. O Alentejo concentra mais de metade da área agrícola (54,7%), mas apenas 11,3% da mão-de-obra, refletindo um modelo altamente mecanizado. Em contraste, regiões como Algarve e Oeste destacam-se pela elevada intensidade produtiva e maior necessidade de trabalho, com produtividades superiores a 5.200 euros por hectare.

Num comentário que acompanha o estudo, o diretor-geral da Consulai, Pedro Santos, realça que "nos últimos anos, a agricultura portuguesa protagonizou uma transformação estrutural notável, tornando-se mais produtiva, mais profissional e cada vez mais tecnológica", para contrapor que, "paradoxalmente, esta evolução não foi acompanhada por um reforço do prestígio social do setor" .

"Pelo contrário, vieram ao de cima fragilidades já existentes que hoje assumem um caráter crítico e condicionam a sua sustentabilidade e competitividade, desde a escassez de mão de obra à dificuldade em atrair talento qualificado e jovem", frisa.

E, neste sentido, "a agricultura em Portugal dependerá da nossa capacidade de qualificar pessoas, integrar tecnologia e valorizar o trabalho agrícola", complementa, citado na nota que acompanha o estudo.

"Sem uma resposta clara, assente na renovação geracional, em políticas públicas eficazes e realistas, em mais capacitação e organização da produção e do setor, corremos o risco de perdermos o dinamismo conquistado, precisamente num momento em que mais precisamos de o consolidar e projetar no longo prazo", conclui.

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