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Morreu o homem do "barrete vermelho" eterno candidato à presidência da Guiné

O ex-presidente da Guiné-Bissau, Kumba Ialá, morreu esta sexta-feira, 4 de Abril, em Bissau de doença cardíaca. Tinha 61 anos e estava reformado da política desde o início deste ano.

04 de Abril de 2014 às 11:54

Kumba Ialá, o emblemático homem do gorro vermelho, que morreu hoje, 4 de Abril, em Bissau, candidatou-se à Presidência da República na Guiné-Bissau em todas as eleições desde 1994, foi eleito em 2000, mas deposto em 2003, por um golpe de Estado militar.

O ex-Presidente da Guiné-Bissau morreu devido a doença cardíaca, disse à agência Lusa fonte próxima do ex-chefe de Estado, que adiantou que o corpo de Kumba Ialá se encontra em câmara ardente no Hospital Militar de Bissau.

Kumba Ialá, que fez 61 anos a 15 de Março de 2014, renunciou à vida activa política a 1 de Janeiro deste ano, alegando "haver um tempo para tudo", e decidiu apoiar o candidato independente às presidenciais, Nuno Nabian.

O ex-primeiro-ministro da Guiné-Bissau derrubado por um golpe de Estado em 2003 desistiu assim da corrida às eleições gerais (presidenciais e legislativas), adiadas por diversas vezes e agora marcadas para 13 de Abril, com 13 candidatos presidenciais e 15 partidos a concorrer à Assembleia Nacional Popular. O fundador do Partido da Renovação Social (PRS) recorreu a várias citações da Bíblia para argumentar que chegara a hora de deixar o seu lugar a outros, não deixando de parte a ideia de que poderia vir a ser "senador da república".

Durante o anúncio da sua saída da vida política activa, de acordo com a Rádio França Internacional (RFI), Kumba Yala afirmou que partia "com a consciência tranquila" de quem "sempre lutou para uma vida melhor para os seus concidadãos". E citou o Rei Salomão, que alegara haver tempo para tudo na vida terrena. A sua decisão de deixar a vida política seria irrevogável.

Candidato a todas as eleições à presidência da República desde 1994

Filho de agricultores, é natural de Bula, poucos quilómetros a norte de Bissau. A sua imagem de marca era o barrete vermelho, que trazia sempre nas aparições públicas. Foi candidato a todas as eleições à Presidência da República desde 1994, ou seja, desde que há pluralismo democrático no país.

Nas eleições de 1994, como líder do Partido da Renovação Social, desafiou o então chefe de Estado, general João Bernardo "Nino" Vieira, mas saiu derrotado numa segunda volta renhida. Chegaria ao poder em 2000, com os analistas da política guineense a afirmar que os eleitores "estavam cansados do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde)", o partido histórico que tinha mergulhado o país numa guerra civil de 11 meses.

Kumba Ialá só ficaria na cadeira presidencial durante três anos, sendo destituído num golpe de Estado militar. Candidatou-se novamente à Presidência da República nas eleições de 2005, em que foi o terceiro candidato mais votado.       Não teve votos suficientes para disputar a segunda volta, mas foi decisivo com o seu [partido] PRS para fazer eleger "Nino" Vieira, que disputou a segunda volta com Malam Bacai Sanhá.

"Nino" não terminou o mandato porque foi assassinado em casa, em Bissau, em Março de 2009, obrigando o país a organizar eleições presidenciais antecipadas. Desta vez, na segunda volta contra Malam Bacai Sanhá, Kumba Ialá foi derrotado nas urnas e exilou-se em Dacar (Senegal) e depois em Rabat (Marrocos).

Em Janeiro de 2012, quando foi anunciada a morte de Malam Bacai Sanhá, vítima de doença, Kumba Ialá, de etnia balanta, filho de agricultores de Bula, reaparece em cena e volta a candidatar-se à presidência. Juntamente com outros candidatos, queixou-se de fraude eleitoral e a 12 de Abril promoveu uma conferência de imprensa para anunciar que não aceitava participar na segunda volta contra Carlos Gomes Júnior. Poucas horas depois deu-se o golpe de Estado militar que conduziria ao actual período de transição.

Para trás ficava a sua filiação no PAIGC quando adolescente, a criação do PRS e os comícios que mobilizaram multidões. Desportista, refugiou-se em Portugal para fugir ao serviço militar (ainda no tempo colonial). Fez o liceu em Loulé e em Lisboa e, segundo a sua biografia oficial, licenciou-se em Filosofia e Teologia em 1981. Formou-se ainda em ciência política em Berlim e, em 1987, chefiou uma delegação do PAIGC a Moscovo (ao 70.º aniversário da revolução de outubro).

Ainda segundo a mesma biografia, em 1990 saiu do PAIGC e quatro anos depois foi eleito deputado já pelo PRS. Em 1995 concluiu a licenciatura em Direito, em Bissau. Era casado e tem vários filhos .No meio do seu percurso político, entre as corridas eleitorais, converteu-se ao islamismo, mas raras foram as vezes em que foi chamado pelo nome que adoptou quando se converteu: Mohamed Ialá.

Simplesmente continuou a ser Kumba Ialá, ou Koumba Yalá Kobde Nhanca, mesmo nas camisolas usadas na campanha.

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