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Mudou o regime, mas o poder da banca ficou

Não demorou muitos dias até o novo poder estabelecido pelo 25 de Abril de 1974 chamar os banqueiros para falar do desenvolvimento do país.

Alexandra Machado amachado@negocios.pt 23 de Abril de 2014 às 00:01
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"Spínola reuniu-se com a banca privada". Não demorou muito tempo para que a banca fosse ouvida, após o golpe de 25 de Abril de 1974 que destronou o antigo regime. Quatro dias depois, no Palácio da Cova da Moura, António de Spínola, "escolhido" para chefiar o novo poder, nas mãos da Junta de Salvação Nacional, reunia-se com os banqueiros.

José Manuel de Mello (Banco Totta & Açores), Miguel Quina (Banco Borges & Irmão), Manuel Espírito Santo (Banco Espírito Santo), António Champalimaud (Banco Pinto & Sotto Mayor) foram chamados pelo Governo para abordar a "nova política de desenvolvimento acelerado e dinâmico", como relatam os jornais da época. O industrial Champalimaud, convertido uns anos antes em banqueiro, foi o porta-voz do grupo.

Como conta Pedro Jorge Castro, no livro "O Ataque aos Milionários", Champalimaud saudou "os que estiveram na base da gloriosa arrancada do 25 de Abril" e queixou-se do regime anterior por limitar "drasticamente a capacidade de acção dos homens de iniciativa". As palavras são do empresário que se tornou o mais rico de Portugal durante o Estado Novo, quando, começando pelos cimentos, que eram do tio, construiu um império que se estendeu à Siderurgia Nacional e, claro, à banca. Tal como o grupo Mello, Champalimaud nasceu na indústria, mas o seu poder estendeu-se ao sector financeiro.

Ambos voltaram a ele assim que as privatizações o permitiram. Afinal, a banca não vivia sem os industriais, mas estes também não conseguiam vingar sem o sistema bancário, querendo nele entrar.

Na quinta-feira, 25 de Abril de 1974, os aeroportos fecharam, impedindo o regresso da equipa do Sporting a Portugal, depois da disputa de um jogo internacional com o Magdeburgo e em vésperas do jogo com o Belenenses. Também nesse dia os bancos não abriram. Segunda-feira, dia 29 de Abril, no mesmo dia em que os banqueiros se reuniam com Spínola, à porta dos bancos instalaram-se piquetes de trabalhadores. Um comunicado do Sindicato dos Bancários dava o mote: "Cabe-nos, entre outras tarefas, controlar rigorosamente as operações bancárias, avisando as delegações sindicais ou directamente o sindicato, nos casos em que não seja respeitado". E continuava: que nesse dia e até às 14 horas "devem ser montados piquetes em todas as portas, não permitindo a entrada seja de quem for (patrões, administradores, clientes e empregados)". À tarde, a partir das 14 horas, podiam apenas ser levantados capitais que correspondessem ao pagamento de salários.

O mês de Maio foi de greves e reivindicações. As críticas foram-se virando para a banca. Em Julho, uma reunião entre banqueiros e Vasco Gonçalves levou à acusação de que os banqueiros dificultavam empréstimos a pequenas e médias empresas. Os meses seguintes culminaram, no ano seguinte, a partir de 11 de Março de 1975, nas nacionalizações. A banca passava para o Estado e com ela muitas empresas, detidas pelas instituições financeiras, passaram também para capitais públicos. A Brisa, hoje nas mãos do grupo José Manuel de Mello, é um desses exemplos.

Passadas as nacionalizações, vieram as privatizações. Os empresários de outrora regressaram. Espírito Santo, Mello, Champalimaud voltaram à banca e construíram participações noutros sectores. Com a liberalização bancária nasceu o BPI e o BCP, que cresceu com as aquisições do Atlântico e do Sotto Mayor.

Todos os bancos fortaleceram o seu poder no mercado português, ficando com participações financeiras. Só agora, depois da crise financeira e do aperto das regras de capital, é que há menos banca nas participações industriais. Mas os banqueiros continuam, tal como aconteceu em Abril de 1974, a ser chamados ao poder.

 
Champalimaud foi o mais rico de Portugal

António Champalimaud era o empresário português mais rico antes do 25 de Abril. Os seus activos, incluindo a Siderurgia (inaugurada no antigo regime), foram nacionalizados a partir de Março de 1975. O empresário voltou e reconstruiu a fortuna. Mas nasceram novas fortunas. Nas empresas, hoje, as maiores são, em Portugal, a Galp, EDP, Sonae e Jerónimo Martins. 

 
O Estado continua a privatizar

TAP já teve privados

A TAP está na lista de privatizações do actual Executivo, que pretende passar para as mãos de privados a companhia de aviação. A participação do Estado no capital não foi resultado das nacionalizações. Os Transportes Aéreos Portugueses, criados em 1945 como serviço público, estavam nas mãos do Estado e mesmo em 1953, quando foi autorizada a sua conversão em sociedade anónima de responsabilidade limitada, o poder público manteve-se no capital onde também estava o empresário Manuel de Mello (genro de Alfredo da Silva, fundador da CUF). Deixou de ter capital privado em 1975 quando foi nacionalizada.

 

CP vende partes

Vinte e nove anos antes da Revolução dos Cravos, o Governo de Salazar determina que todas as concessões de linhas férreas passam a ser uma única, agrupadas na CP. O que resultou, em 1947, na rede ferroviária nacional, que ficou com as concessões construídas numa base regional, com vários accionistas. A nacionalização deu-se, também, em 1975, tendo a empresa, nas últimas décadas, sido repartida em vários negócios. Em 1997 foi criada a Refer que ficou com a gestão das infra-estruturas ferroviárias e que agora será fusionada com a gestora de estradas pública, a EP. A CP, segundo o plano do Governo, venderá a CP Carga e deverá avançar para concessões de linhas.

 

REN sem público

O Governo anunciou recentemente a intenção de vender o restante capital da REN, uma empresa que até tem uma história "jovem". Foi autonomizada em 2000 quando se decidiu retirar a infra-estrutura de electricidade da EDP, onde tinha nascido em 1994. Em 2006, ficou também com a infra-estrutura de distribuição em alta pressão de gás natural, tendo, para isso, comprado os activos à Galp.

 

 

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