Falha na rede espanhola traduziu-se em custos para Portugal, diz APREN sobre apagão

Presidente da APREN diz que apagão de 28 de abril teve origem em falhas de operação da rede espanhola. Alerta que o risco já não está na produção, mas na gestão das redes elétricas.
Carlos Barroso / Medialivre
Patrícia Vicente Rua 16:53

O apagão que a 28 de abril deixou Portugal e Espanha sem eletricidade teve origem em falhas de operação e de controlo de tensão na rede espanhola, mas acabou por traduzir-se em custos económicos e mais emissões em Portugal,  explicou no Parlamento o presidente da APREN, Pedro Amaral Jorge.

Numa audição na Comissão de Ambiente e Energia dedicada à análise do apagão de 28 de abril de 2025, o responsável afirmou que o colapso não resultou de falta de energia nem de excesso de produção renovável, mas de uma falha sistémica de controlo de tensão e de coordenação operacional, que transformou “uma perturbação mitigável num fenómeno em cascata”. "O apagão em Espanha surge por um erro de operação da rede elétrica", disse aos deputados.

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Apesar de a origem do problema não ter estado no sistema elétrico nacional, Pedro Amaral Jorge sublinhou que Portugal acabou por suportar os efeitos da resposta pós-apagão. O fecho das interligações com Espanha e o reforço do recurso a centrais a gás para garantir estabilidade implicaram custos adicionais para os consumidores e impactos ambientais. "Para forçar inércia no sistema foi necessário operar ciclos combinados em detrimento da potência renovável que estava disponível", afirmou, acrescentando: "Isso teve um incremento das emissões e teve um incremento do custo."

Segundo o presidente da APREN, estas restrições técnicas, ativadas fora do mercado diário de eletricidade, "são pagas pelo consumidor", apesar de o sistema nacional não ter estado na origem do colapso. "Fechámos as interligações com Espanha e a potência renovável que importávamos teve de ser substituída por produção a gás", explicou.

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Pedro Amaral Jorge rejeitou de forma clara a associação entre o apagão e a elevada incorporação de energias renováveis, desmontando uma narrativa política que ganhou espaço após o colapso. “Já tivemos dias na Península Ibérica com muito mais incorporação de renováveis e o sistema não caiu”, afirmou, sublinhando que a tese da falta de inércia "não está absolutamente comprovada".

Na leitura da APREN, o episódio deve ser encarado como um aviso estrutural à política energética, num contexto de eletrificação crescente. "O risco já não está na produção de eletricidade, mas na gestão do sistema elétrico”, disse, defendendo que "redes, serviços de sistema e coordenação transfronteiriça são hoje determinantes para a segurança do sistema elétrico."

O responsável rejeitou também que o episódio reabra o debate sobre a energia nuclear como solução para a Península Ibérica, sublinhando que a produção nuclear não resolve problemas de flexibilidade nem de controlo dinâmico do sistema e já está, de facto, integrada através das interligações com Espanha. "A nuclear é uma produção não flexível”, afirmou, acrescentando que, quando a eletricidade espanhola é importada para Portugal, "ela é barata quando a produção é essencialmente solar ou acompanhada de eólica".

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Na sua leitura, soluções baseadas em centrais renováveis híbridas, combinadas com armazenamento, oferecem maior capacidade de resposta e resiliência. "É muito mais fácil deslastrar uma central renovável com baterias do que uma central nuclear", afirmou, sublinhando ainda que um sistema mais descentralizado é também mais robusto do ponto de vista geográfico e operacional.

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