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Metaverso: precisamos mesmo de uma (outra) vida virtual?

Para Zuckerberg, o metaverso é “um conjunto de espaços virtuais onde a criação e a exploração podem ser feitas com outras pessoas que não se encontram no mesmo espaço físico”.

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Lembrar-se-á provavelmente o leitor que, há quase 30 anos e com uma internet ainda jovem e imatura, a plataforma online multimédia Second Life começou por fazer as delícias de muitos cibernautas, na medida em que permitia – e ainda permite, agora com muito mais sofisticação – que as pessoas criassem um avatar para si próprias e tivessem uma "segunda vida" num mundo completamente virtual.

Com o termo "metaverso" a invadir os media, em particular desde que Mark Zuckerberg alterou o nome da empresa Facebook para Meta, anunciando igualmente que este último será o futuro da Internet, a verdade é que ninguém sabe exactamente o que este conceito significa, ou melhor, o que virá a significar, apesar de serem já muitas as tecnológicas, e não só, que começam a salivar perante as suas supostas intermináveis possibilidades. E, para muitos, a plataforma Second Life poderá ser considerada como uma espécie de embrião deste metaverso.


O termo não é de todo novo e o seu aparecimento está geralmente relacionado com o romance de ficção científica "Snow Crash", publicado em 1992 por Neil Stephenson, no qual os humanos, enquanto avatares programáveis, interagem entre si e com agentes de software num espaço virtual tridimensional que funciona como um espelho da vida real e onde existem avenidas, casas, bares, lojas ou auto-estradas, justamente com o nome de metaverso.

Mas, antes de "Snow Crash", já nos anos de 1980 o escritor William Gibson descrevia em "Neuromancer" um mundo digital acessível através de um terminal específico, com alusões à realidade virtual ainda antes de existir sequer tecnologia para tal, apesar de nesta obra ser utilizado o termo "ciberespaço" e não metaverso.


Todavia e como assegura o capitalista de risco Matthew Ball, cujos ensaios que escreve desde 2018 sobre o metaverso se tornaram essenciais para líderes empresariais e observadores tecnológicos que estão a tentar compreender como este funcionará e como dele se poderão retirar lucros chorudos, o termo tem cerca de um século. Ball é o antigo responsável de estratégia da Amazon e o seu primeiro livro, publicado esta semana, faz jus às suas pesquisas e a muitas respostas ainda não clarificadas: 
The Metaverse: How It Will Revolutionize Everything.


Assim, e aguçando o apetite de um conjunto significativo de empresas, e apesar de não existir consenso ou definição universal para o termo em causa, o "metaverso" surge, de forma simples, como a terminologia indicada para descrever um mundo virtual que tenta replicar a realidade juntando à Internet a soma de tecnologia como a realidade virtual (RV) e a realidade aumentada (RA),num espaço colectivo e virtual partilhado.


Zuckerberg descreve-o como " um conjunto de espaços virtuais onde a criação e a exploração podem ser feitas com outras pessoas que não se encontram no mesmo espaço físico", ao passo que para Matthew Ball "o metaverso consiste numa rede expansiva de mundos e simulações 3D contínuas e em tempo real que suportam a continuidade da identidade, objectos, história, pagamentos e direitos, os quais podem ser experimentados de forma síncrona por um número efectivamente ilimitado de utilizadores, cada um com o seu próprio sentido de presença individual".


Para os visionários da tecnologia a previsão associada ao metaverso é a de um mundo vasto e imersivo que espelha e amplia o verdadeiro, permitindo que as pessoas façam e sejam o que até agora seria apenas possível enquanto fruto da imaginação.


Como explica Ball, "em muitos casos, se não em quase todos, ter um ambiente imersivo 3D é uma forma mais intuitiva e produtiva de comunicar informações e ideias". E, dando o exemplo da educação em que a escola via Zoom ou a aprendizagem através de vídeos do YouTube não é particularmente convincente, neste caso em particular é possível compreender e beneficiar das vantagens de uma educação imersiva: como exemplifica, será possível entrar num sistema circulatório, atravessar diferentes ambientes gravitacionais, ou aprender fisioterapia, não assistindo a um ecrã de vídeo, mas fazendo-o através de sensores tácteis com representação 3D e análise de movimento". Como também afirma, e no caso especifico da aprendizagem, podemos certamente supor que muitos elementos disponíveis no metaverso irão enriquecer a nossa experiência e ter melhor impacto do que a Internet actual.


A grande aposta de Mark Zuckerberg é e de forma muito optimista começar a transformar o Facebook no "seu" metaverso", num período de cinco anos (o que toda gente afirma ser impossível). O patrão da ainda maior rede social do mundo deseja assim que o futuro seja um mundo virtual simulado onde as pessoas possam socializar, trabalhar, fazer compras e experienciar várias formas de entretenimento através de avatares digitais de si próprias e não com os seus corpos físicos reais. Apesar de alguns elementos estarem já a ser utilizados – como por exemplo os headsets de realidade virtual – a maior parte da tecnologia fundamental subjacente ao futuro metaverso não existe hoje em dia e, segundo as estimativas de Zuckerberg, podem levar cerca de 15 anos até serem uma realidade.


Zuckerberg está a apostar tudo na ideia, gastando milhares de milhões de dólares – comprando, por exemplo a Oculus VR, fabricante de óculos de realidade virtual – para desenvolver tecnologias futuristas como as pulseiras de interface neural e os óculos inteligentes de realidade aumentada que irão sustentar este novo mundo virtual. Todavia, são muitos os observadores e analistas que consideram o metaverso como uma distracção das muitas questões imediatas com que o Facebook e o Instagram estão a lidar no que respeita à privacidade, segurança e bem-estar mental dos utilizadores – e estão preocupados que estas novas tecnologias possam causar mais ou piorar os problemas sociais já existentes.


Por exemplo, e numa entrevista recente publicada na Vox, e para melhor se compreender as promessas e desafios deste mateverso, Nick Clegg, presidente de assuntos globais da Meta e que escreveu recentemente um longo ensaio sobre o tema, aceita algumas das críticas que estão já a ser feitas a este novo mundo virtual em desenvolvimento, afirmando que o mesmo é ainda "hipotético, que envolve tecnologia ‘intensiva de dados’ e que poderá vir a ser mal utilizado".


Mas a verdade é que uma vasta gama de empresas tecnológicas – desde grandes players como a Microsoft e Google a outras de menor dimensão como a Niantic e a Emblematic – estão já a trabalhar em experiências e produtos para o metaverso, com algumas primeiras versões já existentes no mundo dos jogos virtuais como o Roblox, o Minecraft e o Fortnite, que incorporam já tecnologias como a realidade virtual e a realidade aumentada.


Clegg define o metaverso da seguinte forma: "imagine, por exemplo, como poderia ser útil usar óculos que lhe dêem indicações virtuais na sua linha de visão ou traduções imediatas de sinais de rua em línguas estrangeiras. Ou mesmo permitir-lhe ter uma conversa com alguém que está a milhares de quilómetros de distância e aparece como um holograma tridimensional na sua sala de estar, em vez de uma cabeça e ombros num ecrã plano. (…) Adicionalmente, os potenciais benefícios societais – particularmente na educação e nos cuidados de saúde – são vastos, desde ajudar os estudantes de medicina a praticar técnicas cirúrgicas até dar ‘vida’ às lições escolares de formas novas e excitantes".


Todavia e para todos os que estão a apostar neste admirável (supostamente) mundo novo, a palavra-chave parece ser "presença", ou seja, a sensação de um envolvimento físico com lugares e pessoas em vez de simplesmente os observar através de uma janela de um qualquer dispositivo. Um bom exemplo é uma reunião com colegas de trabalho, em torno de uma mesa virtual, cujos hologramas podem parecer mais naturais para algumas pessoas do que estar a olhar para uma grelha de miniaturas do Zoom.


O temor de que o
 metaverso poderá fazer "desaparecer" a realidade

Se o metaverso se tornar o sucessor da Internet, o "quem" e o "como" de quem o "construir" será extremamente importante para o futuro da economia e da sociedade como um todo. E é exactamente esta uma das maiores preocupações que une muitos observadores e analistas.

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