Mais de 80% dos “researchs” analisados aprofundadamente eram de estrangeiros
A CMVM analisou de forma sumária 653 notas de análise, tendo depois investigado mais aprofundadamente alguns casos.
A grande maioria das notas de “research” que foram alvo de análise aprofundada pela CMVM no último ano foi emitida por analistas estrangeiros. No total, o regulador do mercado de capitais português analisou de forma sumária 653 relatórios recebidos diariamente.
“Dos relatórios de ‘research’ alvo de análise aprofundada, cerca de 81% foram difundidos por intermediários financeiros estrangeiros (44 relatórios)”, detalha a CMVM, no seu relatório anual da actividade de supervisão da análise financeira.
De acordo com o mesmo documento, a CMVM “analisou de forma aprofundada oito situações relacionadas com recomendações de investimento, incluindo 54 relatórios de ‘research’, quatro ‘disclaimers’ de relatórios de ‘research’, bem como um modelo de avaliação constante de um relatório de análise financeira”.
Em termos de actividade, o regulador recebeu dois pedidos de registo para o exercício da actividade de elaboração de recomendações de investimento por parte de intermediários financeiros e seis pedidos de registo de analistas financeiros.
Da análise realizada pela CMVM resultaram vários casos de “análises de intervenção rápida”, onde a entidade presidida por Carlos Tavares procurou identificar eventuais casos de manipulação de mercado através da instrumentalização do “research”.
As situações que mereceram maior atenção por parte da CMVM dizem respeito a relatórios que incluíram alterações significativas dos preços-alvo e/ou do sentido da recomendação, dado serem estes os que são mais susceptíveis de provocar alterações nos volumes de transacções ou nos preços de mercado.
“No período analisado foram efectuadas 17 análises deste tipo e foram solicitados 11 esclarecimentos a intermediários financeiros e outras entidades relacionados com recomendações de investimento, dos quais cerca de 75% respeitantes a entidades estrangeiras”, explica o documento.
1 - Um dos casos analisados pela CMVM diz respeito a uma nota de análise de um intermediário financeiro português sobre uma cotada nacional, “na sequência da alteração da recomendação de investimento dois dias após o mesmo analista ter publicado uma nota sobre o mesmo emitente com uma recomendação de investimento diferente (passou de compra para neutral)”. Diz a CMVM que nesses dois dias não houve qualquer notícia relevante em torno do título que justificasse esta alteração. “Na prática, o que se verificou foi que o analista manteve a recomendação que já tinha sobre o emitente aquando da divulgação do seu comentário à apresentação trimestral de contas, optando por incluir as tendências verificadas nos resultados no seu modelo de avaliação e alterado a recomendação de investimento subjacente dois dias depois”. Neste caso, o regulador concluiu que a recomendação original “já se encontrava há algum tempo desfasada da grelha de recomendações adoptada pelo intermediário financeiro, o que motivou a alteração subsequente da recomendação de investimento”.
2 - Outro caso extremo alvo de atenção por parte da CMVM são dois relatórios divulgados por um banco de investimento estrangeiro, em que o preço-alvo aumentou 220% e a recomendação passou de “vender” a “comprar”. “Numa fase inicial da análise verificou-se que uma das tabelas contidas no relatório com estimativas tinha uma falha, razão pela qual foram solicitados esclarecimentos ao analista”, refere o relatório. De acordo com o mesmo documento, “o intermediário financeiro admitiu o erro e publicou novamente uma versão do relatório com a tabela corrigida, alertando os investidores para tal”. Após novos esclarecimentos por parte do intermediário, o regulador adianta que “a análise às respostas fornecidas permitiu concluir que os relatórios, com um intervalo temporal de cerca de seis meses entre a sua divulgação, eram consistentes entre si embora utilizassem pressupostos mais favoráveis e que o consenso de mercado ainda não incorporava nas suas avaliações”.
3 - A CMVM analisou ainda dois relatórios de analistas estrangeiros, onde o “target” caiu 46%, face a uma avaliação realizada meses antes. “A revisão do preço-alvo ocorreu após a divulgação dos resultados relativos ao segundo trimestre de 2013, no qual o emitente registou prejuízos significativos e evidenciou que a qualidade dos seus activos se encontrava em rápida deterioração”, detalha o relatório. “Foram solicitados esclarecimentos junto do intermediário financeiro que alegou ter incorporado as tendências observadas nos últimos relatórios trimestrais e que tal tinha originado pressupostos significativamente mais pessimistas do que os utilizados anteriormente”, conclui a CMVM.