Arábia Saudita vê Brent nos 180 dólares se conflito se prolongar além de abril
Preços tão elevados podem levar consumidores a adotar hábitos que levem a uma redução do consumo de petróleo ou desencadear uma recessão económica que também acaba por prejudicar a procura. Brent já valorizou mais de 50% desde o estalar da guerra no Médio Oriente.
- 7
- ...
Responsáveis do setor petrolífero da Arábia Saudita – maior produtor de crude do Golfo Pérsico - preveem que os preços do "ouro negro” poderão disparar para mais de 180 dólares por barril, caso a guerra no Médio Oriente e a consequente perturbação do abastecimento energético se mantenham até ao final de abril.
São dados citados pelo Wall Street Journal (WSJ), e preços tão elevados do Brent podem levar os consumidores a adotar hábitos que levem a uma redução do consumo de petróleo ou desencadear uma recessão económica que também acaba por prejudicar a procura.
“A Arábia Saudita geralmente não gosta de aumentos demasiado rápidos do petróleo, porque isso cria instabilidade de mercado a longo prazo”, diz ao jornal norte-americano Umer Karim, analista de política externa saudita e geopolítica do King Faisal Center. “Para os sauditas, a equação ideal é um aumento relativamente modesto dos preços, enquanto a sua quota de mercado se mantém estável”, sublinha.
Desde que estalou o conflito há quase três semanas, os futuros do Brent – de referência para a Europa - já atingiram os 119 dólares por barril, tendo, entretanto, recuado. Fixam-se agora em cerca de 108 dólares por barril, mantendo-se ainda afastados do máximo histórico atingido em julho de 2008, de 146,08 dólares por barril. Já valorizaram cerca de 50% em três semanas.
Ainda assim, “200 dólares por barril não está fora do reino das possibilidades em 2026”, afirmam analistas da consultora Wood Mackenzie, citados pelo WSJ.
Mas esta subida não se compara ainda à evolução dos preços de referência para o crude do Golfo – contrato conhecido como o DME Omã.
Os futuros do DME, que são menos líquidos, mas refletem rapidamente as perturbações no abastecimento local, ultrapassaram os 166 dólares por barril desde o início do conflito. Fixam-se neste momento em cerca de 158 dólares por barril, uma subida de mais de 120% face ao fecho da última sessão antes do estalar do conflito.
Alguns clientes sauditas estão relutantes em utilizar esta referência para os preços, dada a sua volatilidade, afirmaram responsáveis do setor petrolífero do reino citados pelo WSJ. A Aramco, no entanto, insiste que se trata de um reflexo fiel da oferta no mercado.
O petróleo da Arábia Saudita já está a ser vendido a compradores asiáticos através do seu porto no Mar Vermelho por cerca de 125 dólares por barril. Mas à medida que as reservas de petróleo se forem esgotando, a escassez na oferta da matéria-prima será sentida com mais intensidade na próxima semana, levando os preços a aproximarem-se dos 138 a 140 dólares, afirmaram pessoas do setor.
Caso o conflito se mantenha, responsáveis da Saudi Aramco – maior empresa de produção de crude do mundo - esperam que os preços possam atingir os 150 dólares já na segunda semana de abril, antes de subirem para 165 e 180 dólares nas semanas seguintes.
“O mercado já não está a agir como se isto fosse uma situação que terminasse no final de março”, afirma, por sua vez, Rebecca Babin, da CIBC Private Wealth, referindo-se ao fim da guerra. “Não creio que 150 dólares estejam fora de questão daqui a um mês… Se falarmos de junho, aposto em 180 dólares”, acrescenta.
Mas muitas variáveis poderão ainda impedir que os preços subam tanto, entre elas o fim da guerra ou a libertação de barris de produtores sancionados, como sucedeu com a Rússia, contribuindo para alimentar a oferta global.
“Os custos mais elevados do combustível funcionam como um imposto sobre os consumidores e as empresas, obrigando as famílias a gastar mais em energia e menos noutras áreas”, sublinha ao jornal norte-americano Philip Blancato, diretor executivo da Ladenburg Asset Management.
Um consultor que trabalha com a Saudi Aramco afirmou que a empresa está a ponderar um cenário em que o rápido aumento do custo das importações de petróleo na Europa, no Japão e na Coreia do Sul leve a uma desvalorização das divisas destas economias, elevando o custo efetivo da energia para estes países.