Governo eurocéptico em Itália provoca debandada de investidores estrangeiros na dívida

Os detentores estrangeiros de dívida pública italiana continuam a alienar obrigações transalpinas perante o adensar do receio quanto às políticas orçamentais que serão prosseguidas pelo executivo populista e eurocéptico de aliança entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga.
Reuters
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David Santiago 22 de agosto de 2018 às 15:30

Pelo segundo mês consecutivo foi registado um nível recorde de vendas líquidas de obrigações de dívida soberana da Itália, mostram os dados divulgados pelo Banco Central Europeu (BCE) e citado pelo Financial Times.

Em Junho, o montante de obrigações soberanas transalpinas detido por investidores estrangeiros recuou 38 mil milhões de euros, o valor alienado de dívida num só mês mais alto de sempre e que superou o anterior recorde, registado no passado mês de Maio, de 34 mil milhões de euros.

A justificar esta debandada por parte dos detentores estrangeiros de dívida pública italiana está o receio dos investidores relativamente às opções políticas e financeiras do governo eurocéptico e populista liderado por Giuseppe Conte, que chefia um executivo de coligação entre o Movimento 5 Estrelas de Luigi Di Maio e a Liga de Matteo Salvini.

Ainda nesta segunda-feira, o vice-presidente do conselho de ministros transalpino, Giancarlo Giorgetti, afirmou, na ressaca da tragédia relacionada com o colapso do viaduto Morandi, que causou 43 mortos e vários feridos, que Roma pretende avançar com um "grande plano de investimentos em obras públicas" que poderá elevar o défice acima dos 3% do PIB definido como máximo pelas regras europeias.

Apesar de Conte ter assumido funções somente no passado dia 1 de Junho, ao longo do mês de Maio a incerteza em torno do processo de formação de governo na Itália, aliada ao crescendo de probabilidade de um governo eurocéptico em Roma, determinaram o movimento de venda massiva de dívida transalpina que se acentuou no mês se seguinte.

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A volatilidade associada à dívida transalpina adensa-se numa fase em que está já a ser discutido o primeiro orçamento do executivo liderado por Conte que, ao que tudo indica, deverá configurar um aumento de despesa e uma diminuição de receita, decorrência das prometidas medidas que consistem na redução de impostos a famílias e empresas e na instituição de um rendimento de cidadania.

Em sentido inverso, no segundo trimestre deste ano aumentou o volume de dívida italiana detida pelo sistema financeiro transalpino. Os bancos italianos aumentaram em mais de 40 mil milhões de euros o valor dos títulos soberanos emitidos pelo Tesouro transalpino, o maior aumento registado desde a crise das dívidas soberanas na Zona Euro, refere ainda o FT.

Nesta altura os investidores tentam perceber o grau de compromisso das autoridades italianas com a prossecução de políticas de consolidação das contas públicas. Contudo, com uma meta de défice acordada com Bruxelas de 1,6% do PIB em 2018 e de 0,8 em 2019 e perante a admissão de Roma de que a diferença entre receitas e despesa poderá superar os 3% no próximo ano, surge cada vez como mais provável que aquelas metas não serão cumpridas.

Nesta altura, a taxa de juro correspondente às obrigações italianas com prazo a 10 anos está a subir acima de 3 pontos base para 3,022%, um valor abaixo do máximo de 2014 (3,439%) atingido em 29 de Maio, numa fase em que Itália permanecia sem conseguir encontrar uma solução de governo capaz de assegurar apoio maioritário no parlamento.

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