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As ameaças que vêm das fintechs e da big techs

A banca universal tradicional confronta-se com uma mudança de paradigma com o aparecimento de novos “players” como as fintechs e as big techs, com uma regulação ainda muito reduzida e o papel muito acentuado da tecnologia na prestação dos serviços bancários. São as ameaças da especialização e da dimensão.

Filipe S. Fernandes 01 de Fevereiro de 2022 às 14:00
Miguel Morais, risk advisory leader da Deloitte.
Miguel Morais identifica cinco oportunidades e riscos para a banca portuguesa nos tempos mais imediatos. Celestino Santos
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Paulo Costa Martins, sócio da área de Bancário & Financeiro e Mercado de Capitais da Cuatrecasas, considera que a banca tradicional se confronta com um novo paradigma que está a tomar forma, o que vai para além dos temas do curto prazo, como o fim das moratórias e as taxas de juro baixas. Na sua opinião é "o fim da banca universal, o aparecimento de novos ‘players’ (fintech) com uma regulação ainda muito reduzida e o papel muito acentuado da tecnologia na prestação dos serviços bancários".

Sublinha que a atividade de concessão de crédito se tornou dispendiosa, "estamos a assistir ao aparecimento de modelos alternativos em que os bancos passam a oferecer produtos de terceiros muito especializados. A tendência é para que a oferta seja cada vez mais segmentada, em que cada banco se especializa num determinado produto, abandonando gradualmente a sua vocação de banco universal", disse Paulo Costa Martins.

"Os principais desafios que se colocam à banca dita tradicional surgem de dois lados aparentemente opostos, mas que coincidem na utilização dos dados e da tecnologia como ferramenta de peso para conseguir inovação e agilidade na disponibilização de novos produtos e serviços", refere Nuno Sousa, head of Business Development Financial Services da Claranet Portugal.

A tendência é que cada banco se especialize num determinado produto. Paulo Costa Martins, Sócio da Cuatrecasas
Chama a atenção para as chamadas big techs, cuja dimensão e escala estão muito associadas a uma utilização ágil das TI, big data e data analytics. "Representam já um importante desafio, que se poderá tornar mais impactante quando começarem a entrar em mercados até agora muito associados à banca dita tradicional, como o crédito à habitação, ou outro tipo de créditos", avisa Nuno Sousa. Por outro lado, existem as fintechs que fazem do fator da especialização a sua vantagem estratégica, e podem acelerar a fragmentação da cadeia de valor do negócio bancário: pagamentos, transações, gestão de crédito malparado.

Nuno Sousa sublinha ainda a globalização dos próprios serviços financeiros, que poderá gerar assimetrias entre instituições que operam no mercado global, mas estão dependentes de decisões e legislação regional. "Um exemplo claro são as diferentes políticas de taxas de juro nos EUA e na Europa, por exemplo, que podem gerar importantes transferências de fluxos de capitais e desequilibrar os fatores de concorrência entre as diversas instituições", considerou Nuno Sousa.

Os cinco desafios

Para Miguel Morais, risk advisory leader da Deloitte, há cinco desafios, oportunidades e riscos para a banca portuguesa nos tempos mais imediatos. O primeiro tem a ver com a importância da evolução macroeconómica europeia. "A evolução da economia e dos resultados das empresas e, consequentemente, do emprego, será determinante para que, no regresso à exigibilidade dos empréstimos e fim das moratórias, não se verifique um recrudescimento das imparidades. Neste sentido, a evolução de determinados setores fundamentais para a economia portuguesa, como o turismo, poderá ser chave para uma evolução positiva".

Depois refere que "a evolução crescente das taxas de juro porá pressão na solvabilidade das empresas e famílias, mas permitirá aos bancos a melhoria da margem financeira e da rentabilidade, pelo que poderá desbloquear níveis de rentabilidade superiores e sustentáveis, isto porque passam a ser atrativos de capital, ao contrário dos atuais".

O terceiro desafio é um marca dos tempos da crise financeira, e que é a necessidade de redução da base de custos com a continuidade de redução de balcões e empregados bancários, por exemplo, "para sustentação de vantagem competitiva num mercado cada vez mais concorrencial e concentrado e em que a componente tecnológica é cada vez maior".

A digitalização da relação bancária é simultaneamente um grande desafio, que implicará um grande investimento, mas uma grande oportunidade de melhorar a experiência de serviço e a integração de outros serviços e fontes de receita com as plataformas bancárias, por exemplo, como marketplace de produtos/serviços não financeiros na plataforma bancária. "Neste sentido, a digitalização e a consequente disponibilização de meios auxiliares põem a cibersegurança num plano destacado da atenção e investimento por parte das entidades bancárias", alerta Miguel Morais.

O quinto desafio está relacionado com a adaptação aos riscos ESG (Environmental, Social & Governance), destacando-se o exercício de Stress Test climático a realizar em 2022, e o suporte que o sistema bancário dará ao processo de transição energética e climática da economia serão processos longos e sobre os quais exista uma grande aprendizagem a fazer, em particular, sobre os mecanismos de transmissão desses riscos ao setor financeiro.
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