Open banking mais lento em Portugal

Portugal não está a retirar todas as vantagens do open banking”, refere Sebastião Lancastre, CEO da Easypay. Paulo Vila Luz da Thinkland diz que há condições para concentração de negócio em players de dimensão no mínimo europeia.
Open banking mais lento em Portugal
João Luís Fonseca afirma que as apps permitem aos novos bancos digitais um crescimento exponencial.
Filipe S. Fernandes 12 de novembro de 2019 às 13:00

Há diferenças nos impactos das novas diretivas dos pagamentos e do Open Banking na banca e nos serviços financeiros em Portugal em relação a outros contextos internacionais. "Portugal mantém o seu posicionamento de fazer tudo à última da hora e de não se esforçar o suficiente para viver o ambiente de Open Banking com todas as vantagens que este representa", refere Sebastião Lancastre, CEO e fundador da Easypay.

Segundo João Luís Fonseca, líder de Consultoria em Banca da Deloitte, em Portugal, as entidades financeiras "definiram, ou estão ainda a definir, o seu posicionamento estratégico face a estas mudanças, que pode ir desde o simples cumprimento da diretiva, até à sua transformação em digital player".

"A concorrência real em Portugal é muito difícil de caracterizar, porque temos um sistema centralizado numa só empresa que é a SIBS. Claro que há um caminho importante de inovação que é feito, como a criação do MB Way, mas há um bloqueio de concorrência real quando o principal player fornece quase que exclusivamente os seus acionistas, condicionando o mercado", considera Sebastião Lancastre.

Carta-branca à SIBS

"Esta legislação impacta de igual forma os vários países europeus, criando condições para concentração de negócio em players de dimensão no mínimo europeia. Este efeito é já visível com o surgimento de diversas iniciativas nos pagamentos a nível europeu, sendo interessante o facto dalguns desses projetos serem dinamizados por grandes comerciantes", refere Paulo Vila Luz, consultor independente e especializado em pagamentos Thinkland.

Países como Inglaterra, Holanda, França ou Alemanha têm vindo a investir significativamente em empresas de pagamento, estando muito bem posicionadas para assumir posições de relevância não só a nível europeu como mundial", sublinhou Paulo Vila Luz.

O ritmo de inovação no norte da Europa é apontado por João Luís Fonseca, e que é visível no número de fintechs existentes, na exploração de novos serviços proporcionados pelo open banking e numa maior tendência para a não utilização de dinheiro físico (chashless). "Um estudo da Deloitte prevê, inclusivamente, que já em 2025, pelo menos um dos países nórdicos seja quase na sua totalidade cashless, com uso limitado de dinheiro físico apenas em áreas onde não haja uma alternativa digital", assinala João Luís Fonseca.

Em Inglaterra ou Espanha, países que criaram um ambiente de testes real que juntaram incumbentes e fintechs num espírito de colaboração. Segundo Sebastião Lancastre, "Portugal descartou esta hipótese ao dar carta-branca à SIBS que fez tudo sozinha, com os incumbentes seus acionistas, e chamam ao API Market uma plataforma aberta sob o pretexto de que, depois de criada, convidaram todos a entrar. Não é esse o objetivo da PSD2 e do Open Banking, e não é assim que se cria espaço à verdadeira inovação tecnológica colaborativa no setor financeiro".

Resposta com app

A intensidade do ambiente concorrencial levou o banco incumbente a lançar apps. "É um imperativo para ir ao encontro das necessidades dos consumidores, cada vez mais exigentes em termos de mobilidade, conveniência e simplicidade", assinala João Luís Fonseca.

"Serve também como meio de afirmação das marcas, aproveitando a vantagem competitiva de que a banca tradicional beneficia: a relação de confiança construída durante anos com os seus clientes", adianta João Luís Fonseca.

Mas como refere Paulo Vila Luz "isto só por si não permite reduzir duma forma relevante a diferença competitiva para outros players, mesmo nas próprias apps, onde existe muito a fazer para permitir uma experiência de Cliente próximo do que é feito por novos players".

Para responder às big tech e fintech, a banca tem de juntar à "transformação a todos o níveis de atuação dos bancos, incluindo por exemplo a transformação da relação com os clientes melhorando significativamente os sistemas internos de conhecimento dos clientes e criação de interações personalizadas", conclui Paulo Vila Luz.

João Luís Fonseca chama a atenção para o facto de as apps "permitirem a novos bancos digitais um crescimento exponencial da sua base de clientes, com uma base de custos radicalmente menor que a banca tradicional". Por exemplo, o N26, fundando em 2013, conta hoje com 3,5 milhões de clientes, apresentando um crescimento de 75% nos últimos 12 meses e esperando alcançar os 100 mil clientes em Portugal até ao final do ano.

Paulo Vila Luz refere o significativo impacto de mudança nos pagamentos no comércio eletrónico "onde o surgimento de players globais é mais visível. Nos pagamentos presenciais, a mudança tem vindo a ser mais lenta. É no entanto previsível que o crescimento do comércio eletrónico, nomeadamente nos grandes comerciantes, e a criticidade de ter um prestador único de pagamentos, possam vir a trazer alguma transformação nos pagamentos físicos".




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