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Luís Mira: “A investigação anda atrás do agricultor”

“O trabalho colaborativo tem melhorado muito nos últimos anos, e tem desenvolvido soluções à medida do que os agricultores precisam e que é feito com estruturas de interface e do sistema científico e tecnológico”, referiu Nuno Canada, presidente do INIAV.

Filipe S. Fernandes 19 de Outubro de 2021 às 14:30
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"A investigação anda atrás do agricultor e devia andar à frente", considerou Luís Mira, secretário-geral da CAP, referindo-se às novas plantações de olival, de amêndoa e de pera-abacate. "Temos de desenvolver uma agricultura nas zonas que tiverem aptidão através da água, que é o fator de crescimento agrícola. Mas há um grande território que nunca vai ter regadio nem pode ter, e que precisa de soluções face às alterações climáticas, à descarbonização, e às exigências dos consumidores. São necessárias soluções e essas só podem vir da ciência".

Pela sua experiência Gustavo Ramos, diretor-geral da Vera Cruz, afirma que a falta de especialização em Portugal é forte: "sentimos uma dificuldade muito grande em encontrar material e especialistas nas universidades de Portugal sobre a amêndoa". Para criar conhecimento a Vera Cruz fez parcerias com o Instituto Politécnico de Castelo Branco e o Instituto Superior de Agronomia para fazer investigação própria sobre a cultura da amêndoa e "para criar informação e gerar conhecimento para quem quer investir nesta área", assinalou Gustavo Ramos.

O responsável pelo INIAV alertou para o facto de que a evolução da agricultura não é igual. Se há inovações que podem ser diretamente transponíveis, há outras que têm que ser adaptadas à realidade nacional. Estas últimas "têm de ser testadas para mostrar aos agricultores o que é que funciona e o que não funciona, porque se forem os agricultores a testar podem ter prejuízos desnecessários. Este caminho de trabalho colaborativo tem tido uma evolução muito grande nos últimos anos, o que não era tradição. Significa desenvolver soluções à medida do que os agricultores precisam e que é feito com estruturas de interface e do sistema científico e tecnológico", referiu Nuno Canada.

O papel da inovação

"Há alguma fragmentação de massa crítica que tem a ver com a nossa forma de estar. Havia muitas equipas de investigação dispersas por organizações diferentes que não comunicavam entre si", reconhece Nuno Canada. Mas, na sua opinião, tem sido feito um trabalho significativo no sentido de as pessoas começarem a trabalhar em conjunto e de forma colaborativa, para andarem mais depressa e cobrirem mais áreas fundamentais. Além disso, "o número de investigadores no ecossistema de inovação da agricultura não é ainda suficiente e portanto há necessidade de reforçar", disse Nuno Canada.

O presidente do INIAV faz o mapeamento das linhas de investigação em que se existem as de teor agrícola consideradas importantes para o país como a vinha, os cereais, a produção animal. Mas Nuno Canada relembrou que a "agricultura, além da produção de alimentos, tem uma outra função fundamental que é a proteção da natureza, da biodiversidade, a ocupação do território e são linhas de investigação importantes". Aludiu ainda às novas culturas, como a amêndoa, o abacate, para as quais é preciso ter instalações experimentais para testar, validar e demonstrar a tecnologia e as variedades e fazer formação.

Como refere Nuno Canada, "o INIAV é uma das organizações que procura não só atrair para dentro do ecossistema empresas tecnológicas mas também fazer o papel de interface, com as novas estruturas colaborativas, como os laboratórios colaborativos, os centros de competências, e as organizações de produção, que são fundamentais no papel ativo para fomentar estas tecnologias. Mas isto tem de estar ligado à tal capacitação dos técnicos e dos agricultores para isto poder ser mais disseminado".

Lembrou ainda que o INIAV tem os laboratórios nacionais de referência para as doenças dos animais incluindo as zoonoses, as doenças e pragas das plantas, incluindo a floresta, para a segurança alimentar dos produtos de origem animal e vegetal (riscos químicos e biológicos) e para a alimentação animal. Há também uma orientação para a digitalização e para deteção precoce de pragas e doenças, para diagnósticos mais rápidos, mais automatizados.

Candidaturas abertas ao 10º Prémio Nacional da Agricultura
As candidaturas à 10ª edição do Prémio Nacional da Agricultura estão abertas em premioagricultura.pt. É uma iniciativa do Correio da Manhã e do Jornal de Negócios em parceria com o BPI, e que conta com o patrocínio do Ministério da Agricultura e o apoio da PwC.

"O setor agrícola é, a par do turismo, um dos setores prioritários para o Banco BPI, e que tem conseguido, de uma forma consistente, a colocação das principais linhas de crédito ao setor agrícola", afirmou Pedro Barreto, administrador do BPI, durante o webinar "Inovação e Revolução Digital" no âmbito do Prémio Nacional da Agricultura. Este debate contou com Nuno Canada, presidente da Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), Luís Mira, secretário-geral da CAP, e Gustavo Ramos, diretor-geral da HVCZ, e a moderação de João Ferreira, jornalista da CMTV.

Pedro Barreto sublinhou a resiliência do setor à situação pandémica que vivemos no último ano e meio, que, na sua opinião só foi possível devido à profunda transformação e modernização do setor nos últimos anos. "Os desafios que se colocam ao setor apontam a inovação e a digitalização como duas exigências para assegurar a transição para a sustentabilidade e a manutenção dos mais elevados padrões de segurança alimentar", referiu Pedro Barreto.