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Notícia

Banca atrofia mercado de capitais

A Bolsa de Lisboa devia-se focar nas empresas que precisem de capital, que tenham projetos de investimento e que não serão unicórnio, mas que possam dar um retorno de dois dígitos e nas saídas das empresas dos private equity.

Filipe S. Fernandes 20 de Novembro de 2020 às 14:30
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O mercado de capitais em Portugal "é atrofiado pela banca portuguesa, que tem demonstrado uma certa capacidade para se atrofiar a si própria, isso de facto não tem corrido mal, mas há anos que atrofia o mercado de capitais", defendeu Rui Alpalhão. Considera que "é preciso ter um canal alternativo, liderado por pessoas cujo skin in the game esteja no setor que estão a administrar, e que não estejam between jobs na banca".

José Paulo Esperança destacou o papel da ciência portuguesa na criação de unicórnios, empresas que chegam a uma valorização de mil milhões de dólares, como a Farfetch, a OutSystems e a Talkdesk, e de empresas que acabaram por ter uma valorização muito significativa. "Têm grande relação com o que se produz em termos científicos em Portugal, o grande problema é que raramente servem para alimentar a bolsa portuguesa, ou seja, acabam sempre por ser cotados e por terem financiamentos que vêm do exterior, sobretudo Londres ou Estados Unidos".

Adeus, Lisboa

Na sua opinião, se fosse possível trazer algumas dessas empresas para a bolsa de valores, como, por exemplo, a Feedzai, uma empresa que trabalha com os principais bancos ao níveis mundiais, e outras empresas que estão a ter uma projeção muito grande. "O problema está em captar essas empresas para o nosso contexto". Referiu ainda as duas grandes áreas, o digital e o verde, que são as apostas do plano de recuperação europeu que podem ser duas áreas de desenvolvimento de empresas inovadoras em Portugal.

Mas Rui Alpalhão aduziu que desde há muito tempo que "as poucas empresas portuguesas com potencial de crescimento não querem ouvir falar em cotar em Lisboa". A solução "é rapar um bocado o tacho e trabalhar as saídas do private equity português das empresas, que sai muito mal e há com certeza empresas que podem entrar por essa via em bolsa, mesmo que não sejam empresas potenciais unicórnios, e trabalhar capitalizações mais baixas, porque a bolsa portuguesa deixou de começar a subir quando passou a ser considerado um mercado desenvolvido".

Em termos de corporate não é fácil obter financiamento bancário, "porque a gestão do risco de crédito é através da abstinência, portanto, não há. A banca está disponível para emprestar aqueles indiscutíveis, que são quatro ou cinco". Rui Alpalhão acrescenta ainda que a bolsa de Lisboa se devia focar "nas empresas que precisem de capital, que tenham projetos de investimento que possam dar um retorno de dois dígitos, e deixar as outras para Londres ou para os Estados Unidos. Porque é que a Farfetch havia de ter de estar em Lisboa? Não era uma boa decisão para a criação de valor para os acionistas da empresa, teria de ir para a bolsa melhor".