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A inflação vai beneficiar as ações e algumas commodities

Os portugueses têm de passar de aforradores a investidores, investindo mais em ações e outras classes de ativos, e com horizonte de anos, que permitam ganhos a médio prazo, em vez dos depósitos a prazo relativamente curto, a 3 meses, 6 meses, 1 ano.

Filipe S. Fernandes 18 de Maio de 2021 às 12:00
“Quando passamos de aforrador para investidor, a questão do prazo é fundamental”, afirma José Miguel Calheiros. DR
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"O mercado como um todo ainda está longe da euforia que caracterizava, por exemplo, o princípio do milénio, até porque temos, de facto, fundamentais, como os lucros palpáveis, em grande parte dos setores da economia, que justificam as valorizações que temos. Hoje, estamos relativamente otimistas, embora haja áreas que temos de evitar", referiu José Miguel Calheiros, diretor-geral do Bankinter-Gestión de Ativos durante a primeira sessão de Talking Money - O Valor do Dinheiro, iniciativa do Jornal de Negócios com o apoio do Abanca, Banco Carregosa e Bankinter.

Mas admitiu que há "segmentos de mercado em que temos claramente comportamentos que já são muito mais especulativos do que propriamente de investimento, em consequência da política monetária ultraexpansionista, com taxas zero, em todos os blocos monetários, seja norte-americano, seja da Zona Euro". Sublinhou no entanto que afeta parte do mercado, mas não a sua totalidade e isso "é importante para o investidor, nomeadamente para aquele que investe de forma diversificada".

José Miguel Calheiros sublinhou que o investidor português é um investidor muito conservador. Investe "em depósitos a prazo, algumas obrigações, uma ou outra ação herdada dos tempos das privatizações ou das OPV, mas não temos de facto um investidor ainda que esteja muito virado para os ativos de risco". Questionado por Diana Ramos, diretora do Jornal de Negócios sobre as razões, José Miguel Calheiros adiantou "que os depósitos a prazo tiveram até 2012/13 uma conotação de grande segurança, e é verdade, que, até determinada altura, sempre pagaram taxas de juro nominais relativamente atrativas, o que acabou sempre por condicionar muito a escolha de outros ativos".

Investir a longo prazo

A partir do momento que as taxas de juro passaram a ser cada vez mais baixas e até próximas de zero, é cada vez mais difícil para o investidor tipicamente conservador rentabilizar o seu património. Por isso nos últimos dois ou três anos muitos investidores passaram parte do seu património, "para produtos perfilados, isto é, que combinem depósitos, ações, obrigações, matérias-primas e outras classes de ativos, de maneira a terem um perspetiva de rendimento superior ao têm hoje em dia os depósitos a prazo".

Para José Miguel Calheiros, os investidores têm de começar a migrar para combinações com ações e outras classes de ativo que permitam ganhos a médio prazo. "É outra grande mudança de paradigma para o investidor português, porque as pessoas estão muito habituadas ao depósito a prazo, a terem ali uma remuneração certa a um prazo que é relativamente curto, a 3 meses, 6 meses, 1 ano. Quando passamos de aforrador para investidor, a questão do prazo é fundamental, temos horizontes temporais para investir em anos e não em meses, o que é crítico para se poder ganhar dinheiro", disse José Miguel Calheiros.

Para o diretor-geral do Bankinter-Gestión de Ativos, há um universo "investível ", do ponto de vista do mercado de ações, que hoje em dia está ao dispor de qualquer investidor em Portugal, como os mercados norte-americano, europeu, do Reino Unido, Japão. Em relação ao mercado acionista português considerou que é muito reduzido em termos de número, dimensão e diversidade de empresas. "Mas é sobretudo pouco representativo do que é o universo de investimento disponível hoje em dia. Há muitos setores que não tem qualquer tipo de representatividade no mercado português como, por exemplo, a tecnologia, que representa quase um quarto do mercado norte-americano."

A mãe de todas as bolhas

Há cerca de 20 anos que a inflação quase não é tema, mas José Miguel Calheiros alertou para a probabilidade do regresso da inflação em consequência dos estímulos orçamentais e monetários. Esclarece contudo que tanto o BCE (Banco Central Europeu) como a FED (Reserva Federal) admitem um processo inflacionista, o que "significa taxas de inflação acima da média, entre 2/3% durante os próximos anos, sendo que isso vai beneficiar os ativos nominais, nomeadamente as ações e algum tipo de commodities, e vai prejudicar o que são os ativos fixos, como as obrigações de médio longo prazo, como foi visível nos primeiros cinco meses deste ano."

"Tenho sempre imensa dificuldade em classificar como ativo investível algo que não tenha um cash flow associado, ou seja, não tenha uma remuneração, uma fonte de rendimento que de alguma forma possa valorar e perceber se face ao preço a que está a transacionar se está barato ou se está caro", explicou José Miguel Calheiros sobre as criptomoedas.

"As ações têm dividendos, mais-valias, as obrigações tem o juro, o cupão, o próprio imobiliário tem a renda, tem sempre algo que permite ao investidor se está caro ou está barato, face ao preço a que pode adquirir. Uma criptomoeda ou o ouro digital, como já lhe chamam, à semelhança do ouro não tem cash flows, depende muito daquilo que é a lei da procura e da oferta, traduza-se, daquilo que o mercado pode, que o comprador e o vendedor acham que aquele "ativo" vale". No entanto, o ouro tem um valor de uso e de refúgio e está há 5 mil anos nas carteiras de investimento e poupança.

Na sua opinião, pelo facto de haver taxas de juro zero, "é fácil que algo que não tem grande substância levite e quanto mais leve for, quanto menos substância tiver, mais levita, portanto, a bitcoin é um pouco isso e as pessoas vão atrás do tal ganho fácil, imediato", e que pode ser, como afirmou Nouriel Roubini, a mãe de todas as bolhas.