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“A transformação digital passa por ecossistemas e não por egossistemas”

“Exige uma liderança muito presente, não para gerir o detalhe ou o progresso das iniciativas, mas para desafiar a mudança, que é fundamental num processo de transformação”, diz Maria José Campos, administradora executiva do Millennium BCP.

Filipe S. Fernandes 13 de Julho de 2021 às 10:27
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"O nosso canal principal de interação com os clientes, hoje em dia, é a app", refere Maria José Campos, administradora executiva do Millennium bcp, na webtalk da iniciativa "Vamos lá, Portugal!" dedicada ao tema "Digitalização | Portugal na linha da frente?". "Nos próximos dez anos, os balcões vão ser reduzidos, transformar-se em termos de formato, coreografia, com maior integração com os canais digitais. Esta capacidade de presença física, remota ou presencial, vai ser um fator distintivo, porque estamos ao nível dos melhores digital players na área da banca."

É sobre este caminho de transformação digital que procura refletir. "O sucesso da transformação digital é muito condicionado pelo ponto de partida, a ambição, as capacidades instaladas na organização e também a tecnologia, apesar de às vezes se dizer que a tecnologia se compra, mas na verdade a tecnologia é verdadeiramente transformadora, combina-se e deve ter uma grande componente de internalização", defendeu Maria José Campos.

Na sua perspetiva há três fatores que determinam o sucesso de uma transformação digital. O primeiro é a capacidade de mudar de ponto de vista "e a banca tem feito um exercício muito importante nesta frente, que é passar a ver as coisas na perspetiva do cliente, naquilo a que se chama a banca centrada no cliente", afirma Maria José Campos.

O segundo fator é a mudança de liderança, que é um tema transversal a muitas empresas em Portugal. "Temos de mudar de um over-management ou de um underleadership para um processo em que a liderança está muito presente, mas não para gerir o detalhe ou o progresso das iniciativas e sim para desafiar a mudança, que é fundamental num processo de transformação."

O terceiro fator é a colaboração. Como diz Maria José Campos, a transformação digital é grande demais para uma organização só. "Temos de estar preparados para liderar ecossistemas e participar em ecossistemas de terceiros e não sucumbir aos egossistemas."

O poder da mudança

A conquista do futuro tem levado o BCP a criar vanguardas, como uma minirrede interna de start-ups, para desafiar, transformar e avançar em termos de organização e negócio. "Criamos equipas com competências novas na banca, como psicólogos, sociólogos, designers, especialistas em negócio digital e pessoas com um conhecimento profundo da banca", refere Maria José Campos.

Cada uma destas equipas é responsável por uma determinada jornada de cliente como investimento, empréstimos, depósitos, e tem accountability em termos de resultados, performance. "Com este modelo as pessoas percebem que estão a participar diretamente num objetivo maior, o que nos permite atrair o melhor talento que existe", conclui.

Com os fundos europeus do PRR, a digitalização ganha um novo hype. "O que temos neste momento é um mundo de oportunidades para criar e desenvolver talento e para inovar. Os dois vetores que representam este mundo de oportunidades são a educação e a inovação, e a pandemia veio gerar uma necessidade de criar mais serviços digitais, opções de comércio online e mais pessoas digitalmente capazes", observa Tiago Azevedo, CIO da Outsystems.

É sobre a base da educação que se podem formar mais pessoas, mais especialistas em tecnologias de informação e comunicação, para ter mais capacidade de "ter ideias neste mundo digital e se poderem desenvolver conceitos, aplicações. Os estudos indicam que temos de formar mais especialistas em tecnologias de informação e comunicação, aumentar as nossas capacidades digitais, temos também de melhorar a conectividade a nível do 5G, em que estamos muito atrasados."

Tiago Azevedo defende que se deveria ensinar a programar desde o início do ensino básico às escolas técnico-profissionais, que é mais uma alternativa em termos de saída profissional. Deveriam existir mais cursos superiores nesta matéria e mais reconversão de pessoas de outras profissões, de outras origens para a tecnologia. "A digitalização é um risco para algumas funções que desaparecem. Se nada fizermos teremos 1,2 milhões de pessoas sem trabalho, se investirmos nestes programas de reconversão, acedem ao emprego e com salários bem pagos."

O pensamento crítico

Na programação, low code, uma forma facilitada de programação de que a Outsystems é precursora, a democratização da codificação, lançada recentemente pela Microsoft, as competências são importantes, mas em qualquer empresa, na banca certamente, "é mais importante desenvolver capacidade de pensamento crítico e capacidade de transformação de processos", diz Maria José Campos.

Em consonância com Maria José Campos, Tiago Azevedo refere a multiplicidade de skills que tem de existir num contexto da produção daquilo que hoje em dia se chama um produto digital e, como têm de ser desenvolvidas de forma rápida, aplica-se muito design thinking "porque se pretende olhar para eles de um ponto de vista daquilo que é o cliente ou o utilizador ou o cidadão".

Diz que é necessário desenvolver serviços mais rápidos e ágeis, diminuir os chamados leaptimes, para "devolver a produtividade às pessoas". Tem esperança de que o investimento do PRR na digitalização da administração pública transforme cada um dos serviços do Estado "num serviço digital pensado a partir do ponto de vista do cidadão".

No caso das empresas existe ainda o comércio eletrónico, que é também uma forma de se poderem internacionalizar ou eliminar quaisquer fronteiras, e a componente de marketing, produção de produtos e serviços, que são "modelos operacionais baseados e assentes no digital", afirma Tiago Azevedo.