As soluções passam pelas estratégias de longo prazo

"Os cuidados integrados geram mais QALY, são mais caros que os cuidados normais, sobretudo no que se refere aos cuidados primários, mas os custos totais são mais rentáveis e com o tempo tornam-se menos onerosos", referiu Lieven Annemans.
As soluções passam pelas estratégias de longo prazo
Filipe Fernandes 24 de outubro de 2019 às 15:50

Os sistemas de saúde devem baseados em três valores como a qualidade, a solidariedade e a sustentabilidade, e que partem da premissa do direito humano aos melhores cuidados de saúde, sustentou Lieven Annemans, professor de Economia da Saúde na Universidade de Ghent, na sua conferência "Value-Based Health Care and how it can contribute to healthy lives" na 4.ª edição de Investir em Saúde. Financiar Anos de Vida, numa organização do Jornal de Negócios com o apoio da Janssen e da APAH (Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares).

Estes sistemas de saúde têm como principais desafios a fragmentação dos cuidados de saúde, os desperdícios tanto por abuso como por sobreutilização, subutilização ou má utilização, a demografia com o envelhecimento da população e o aumento das multimorbilidade, os custos exponenciais das tecnologias e a desigualdade no acesso aos cuidados de saúde.

Salientou que ainda não houve um sistema de saúde baseado em resultados e em valor porque há muita variação, embora as repostas passem por esta filosofia. Tem como pontos cardeais a reorganização das unidades de saúde com práticas integradas tendo em conta o percurso médico do paciente, na medição de resultados e dos custos, a evolução dos blunded payments para os ciclos de tratamento tendo em conta os resultados, a integração com outras unidades do sistema de cuidados de saúde, a expansão de serviços de excelência e construir ou melhorar as plataformas tecnológicas.

2,7% ao ano

Na sua apresentação, Lieven Annemans estabeleceu os cinco princípios para a implementação do Valor em Saúde (Value-Based Health Care) tendo em conta que segundo a OCDE se prevê que os gastos per capita em saúde aumentem em média 2,7% ao ano entre 2015 e 2030.

Passa pelo investimento, os custos efetivos, a integração total de cuidados e da rede, a mudança da forma de remuneração dos profissionais de saúde e dos hospitais e a construção de um sistema operacional de saúde digital. Para os cuidados integrados tem de haver mudança na forma de financiamento com o pagamento por performance.

A inovação introduz novos custos no sistema por isso é importante chegar ao seu custo efetivo porque com este "poupa-se dinheiro e ganha-se saúde", através dos QALY (Quality Adjusted Life Years). "Os cuidados integrados geram mais QALY, são mais caros que os cuidados normais, sobretudo no que se refere aos cuidados primários, mas os custos totais são mais rentáveis e com o tempo tornam-se menos onerosos", referiu Lieven Annemans.

Lieven Annemans alertou ainda que os princípios do valor em saúde foram formulados por Michael Porter e num paradigma de saúde diferente do europeu, e por isso sublinhou que tem de se ter em contar aspetos como as condições de trabalhos dos profissionais, o acesso em condições de igualdade e as estratégias de prevenção.

  

80% de cesarianas

Alexandre Lourenço referiu no seu comentário a esta exposição que em Portugal o problema da fragmentação dos cuidados se transforma em fragmentação do alinhamento de parceiros e de incentivos. É difícil ter dados sobre a sobreutilização de cuidados, mas, por exemplo, no setor privado 80% dos partos são feitos com utilização de cesariana. "São indicadores de qualidade que seria importante abordar de uma forma integrada no setor da saúde", disse.

Sublinhou que o desenho dos serviços não está feito para o atual perfil demográfico de terceiro país da União Europeia com mais população acima dos 65 anos. Acrescentou que o preço das novas tecnologias é outro desafio, "fazia todo o sentido a determinação de QALY para Portugal. Nesta deve-se ter em conta o impacto clínico e orçamental que cada tecnologia".

O acesso desigual a cuidados de saúde é outro problema, "até porque sabemos que as pessoas que não têm o quarto ano de escolaridade têm quatro vezes mais probabilidades de ter diabetes do que as pessoas que têm o ensino obrigatório".




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