“O mercado único europeu não existe”, disse Carlos Moreira da Silva, presidente da Associação Business Roundtable Portugal, na conferência organizada pela ACP-CCIP, que serviu para apresentar o estudo “Alterações Geopolíticas e ‘guerra comercial’: cenários, impactos e recomendações de política”. Para o justificar, Carlos Moreira da Silva citou um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), de novembro de 2024, no qual se refere que “as taxas internas na Europa para a transação de bens são, em média, de 47%. Muito mais do que entre os Estados americanos, que é de cerca de 15%. Gostamos de tornar mais difícil a nossa vida. Nos serviços, a taxa equivalente é de 110%”. Ressalvou que “não temos um mercado único e, ao não ter um mercado único, perdemos a nossa capacidade de ter uma política comercial ativa e capaz”.
Neste estudo, Portugal “é o quinto pior da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) em barreiras criadas para produtos industriais e a segunda economia da OCDE mais defensiva nos serviços. Temos de nos preocupar com as tarifas, mas temos de nos preocupar com a nossa casa. E se não fizermos aquilo que temos de fazer, não há salvação possível e não adiantam mais incentivos”, assinalou Carlos Moreira da Silva. E sublinhou que as principais dificuldades que as decisões tarifárias criaram foram a incerteza e a volatilidade permanente, que são negativas para os investimentos das empresas. Salientou que os efeitos indiretos das tarifas norte-americanas em Portugal, como a deslocalização das indústrias, “são os mais complicados”. Deu como exemplo a empresa de metalomecânica “que vende de Portugal para os Estados Unidos, decide, na incerteza, investir nos Estados Unidos e fechar em Portugal. Este é um efeito indireto mais preocupante e que vemos acontecer cada vez mais em setores exportadores, não só para os Estados Unidos, mas em geral”.
Mudança nos incentivos
Na sua opinião, “não existem condições para investir na Europa” e aconselha a investir fora da Europa. “Pode ser no Norte de África, na Ásia, na Turquia, que se deve investir, não é na Europa. Lamento dizer isto, mas hoje é isto que se passa. Não temos condições para investir na Europa e, quanto mais intensiva for em energia, pior”.
Carlos Moreira da Silva assumiu uma posição muito cética em relação aos benefícios do centralismo e dos apoios públicos e comunitários. “Quando temos o centralismo a escolher quais são os setores em que vale a pena investir, já começamos a derrapar. Acredito que a capacidade da economia, das empresas, dos empresários, de encontrarem o seu caminho é mais virtuosa do que um planeamento mais central”.
Sugeriu que os apoios fossem concedidos através da diminuição da carga fiscal futura. “Se as empresas tiverem resultados, têm incentivo, caso contrário, não”, reconhecendo que esta abordagem pode ter aspetos e externalidades negativas, pela falta de capital em geral. “Enquanto na Europa não fizermos o mercado único financeiro, não temos capital. A percentagem das poupanças europeias que é investida nos Estados Unidos é superior a 50%”.