Num cenário central com tarifas de 15%, “as exportações portuguesas para os Estados Unidos poderão diminuir entre 300 e 370 milhões de euros num único ano, sendo que num cenário mais adverso, com tarifas mais elevadas, as perdas poderão aproximar-se dos 800 milhões de euros”, assinalou Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto - Câmara de Comércio e Indústria (ACP-CCIP). Nesta intervenção, apresentou algumas das conclusões do estudo “Alterações Geopolíticas e ‘guerra comercial’: cenários, impactos e recomendações de política”, coordenado pelo diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), Óscar Afonso, com o apoio dos professores Paulo Mota, Rosa Forte e Rui Henrique Alves, e acompanhamento estratégico de Nuno Botelho, presidente, e de Jorge Macedo, diretor da ACP-CCIP. Os seus efeitos extravasam as exportações diretas e impactam a economia portuguesa, podendo “traduzir-se numa quebra de produção superior a 750 milhões de euros por ano, numa redução de valor acrescentado bruto entre 215 e 270 milhões de euros e na perda de entre 4.500 e 6.000 postos de trabalho, considerando apenas o cenário central. Em contextos mais gravosos, estes números poderão duplicar”.
Perda de investimentos industriais
A Região Norte de Portugal surge como a região mais vulnerável às tarifas norte-americanas e às mutações no cenário internacional. “Poderá concentrar mais de metade das perdas de emprego estimadas e uma parte muito substancial das quebras em valor acrescentado e remunerações”, revelou Nuno Botelho, destacando como setores mais afetados os produtos petrolíferos, o ferro, o aço, os têxteis, a borracha, o equipamento elétrico, a cortiça e a madeira.
Nuno Botelho alertou ainda que os efeitos impactam os serviços, mesmo que não estejam sujeitos a tarifas. “O estudo chama também a atenção para riscos sérios no turismo, nos transportes, nos serviços empresariais, nas áreas tecnológicas, quer por via de restrições indiretas, quer por alterações nas cadeias logísticas e nas redes de funcionamento dos mercados”.
Existe ainda, segundo Nuno Botelho, “a possibilidade de desvio de investimento industrial da União Europeia para os EUA quer para evitar tarifas, quer para beneficiar de condições mais favoráveis, com implicações potencialmente graves para países como Portugal, fortemente dependentes de investimento proveniente do espaço europeu”.
O custo invisível
O presidente da ACP alertou para o custo invisível de muitas decisões da administração norte-americana que foram alteradas, suspensas ou revertidas pouco tempo depois de anunciadas. Estes comportamentos geradores de incerteza constituem, “um custo económico adicional relevante, pois adia investimentos, trava decisões estratégicas, penaliza o emprego e fragiliza as cadeias de valor. É um custo que não surge de imediato, mas que se acabará por pagar ao longo do tempo”. Na sua opinião, “o Estado deve apoiar o setor exportador e tornar a economia mais competitiva, quer pela via fiscal, quer pela via burocrática, simplificando processos ”, defendeu.