O impacto direto das alterações tarifárias dos Estados Unidos pode ser relativamente moderado para a economia portuguesa, estimando perdas entre 300 e 360 milhões de euros em exportações, referiu Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), na conferência de apresentação do estudo que coordenou, “Alterações Geopolíticas e ‘guerra comercial’: cenários, impactos e recomendações de política”, apresentado pela ACP-CCIP.
Esta moderação explica-se pela estrutura do comércio externo português. “O grosso do comércio internacional de Portugal é feito com países da União Europeia, basicamente com três grandes parceiros, que são aqueles que nos seguem geograficamente, Espanha, França e Alemanha, e depois outros países da União Europeia. Os Estados Unidos são um dos principais parceiros fora deste espaço comunitário, que representam 6,7% das nossas exportações”, explicou Óscar Afonso, que se mostrou preocupado com os efeitos indiretos no curto prazo porque, se estas alterações tarifárias tiverem um impacto muito significativo em França, em Espanha, na Alemanha e noutros países da União Europeia, e estes crescerem menos e tiverem menos rendimento disponível, “vão-nos comprar menos e, portanto, vai ter um impacto maior na economia portuguesa”.
Apoios públicos seletivos
Face às alterações geopolíticas e à guerra comercial, Óscar Afonso sugere apoios públicos seletivos aos setores mais expostos ao aumento das tarifas americanas, condicionados a indicadores de produtividade, valor acrescentado e orientação exportadora, numa lógica de eficiência e retorno do investimento público que contrarie as tendências centralistas e promova a coesão territorial efetiva. Em relação a medidas de política económica, Óscar Afonso defende uma abordagem diferente na atribuição dos fundos comunitários. “Privilegiaria os setores que geram maior valor acrescentado, que são mais produtivos e mais extrovertidos. Não consigo perceber qual é o critério na atribuição dos fundos comunitários, mas podia haver critérios associados a indicadores”. Rejeita ainda apoios setoriais generalizados em favor de critérios de desempenho transversais.
Pouca eficácia dos fundos
Óscar Afonso sublinha que “um dos bloqueios ao crescimento português é o centralismo”, referindo que a convergência das regiões com a média da União Europeia se degradou desde 2000. “O rendimento do Norte em relação à média da União Europeia é de 69% e não sai disto de 69%”, exemplifica. Considera que “um euro de investimento público em Lisboa tem menos retorno do que um euro de investimento público no Norte ou noutra região qualquer. E, portanto, estamos a gastar dinheiro para ter menos retorno”.
Em relação à eficácia dos fundos europeus enquanto motor de transformação económica portuguesa, Óscar Afonso referiu que, desde 1999, Portugal cresceu em média 1% ao ano, “o que significa que dobra o PIB ao fim de 69 anos”. Este cenário de estagnação contrasta com outras economias europeias, como os países do Leste europeu, “que receberam muito menos fundos do que Portugal e crescem, em média, 3% ao ano, e dobram o PIB ao fim de 20 anos”.
Óscar Afonso revelou que fez uma análise à taxa de crescimento de Portugal entre 2000 e 2019 e concluiu que “crescemos 0,7% ao ano”. Mas se “tirarmos os fundos que foram atribuídos a Portugal nesse período, a nossa taxa de crescimento médio era de menos de 0,8%”. A sua conclusão é que “os fundos europeus não transformaram a economia, foram gasto e não investimento, na maior parte dos casos”.