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Mário Jorge Machado: “O que falta são barreiras à entrada na Europa”

Mário Jorge Machado, que lidera a associação dos têxteis portugueses e europeus, revelou que todos os dias chegam à Europa 14 milhões de pacotes da Shein e da Temu, em que mais de 60% são artigos têxteis.

16:00
A mesa-redonda sobre os “Efeitos das Tarifas dos EUA nos Mercados Globais
A mesa-redonda sobre os “Efeitos das Tarifas dos EUA nos Mercados Globais José Gageiro/Movephoto
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A mesa-redonda sobre os “Efeitos das Tarifas dos EUA nos Mercados Globais” contou com a participação de Manuel Pinheiro, Mário Machado, e Rui Alves. A moderação esteve a cargo de Diana Ramos, diretora do Negócios.

O setor têxtil e vestuário português exporta 6 mil milhões para um volume de negócios de 8 mil milhões de euros, e é um dos setores produtivos mais internacionalizados”, afirmou Mário Jorge Machado, presidente da Associação Têxtil e Vestuário e da Euratex, durante a mesa-redonda “Efeitos das Tarifas dos EUA nos Mercados Globais”, integrada na conferência organizada pela ACP para a apresentação do estudo “Alterações Geopolíticas e guerra comercial: cenários, impactos e recomendações de política”.

Quando exportamos para os Estados Unidos, lidamos com as tarifas que os Estados Unidos estão a impor à União Europeia, mas também com as tarifas que os Estados Unidos colocaram a uma série de outros mercados produtores. “Com esta conjugação de tarifas, os resultados não são lineares. O setor de vestuário e de tecidos, que exportava perto de 100 milhões de euros, teve um crescimento de cerca de 7%. Os têxteis-lar e as malhas decresceram”, disse Mário Jorge Machado.

Diversifiquem o país, que as empresas diversificam os mercados, e deve ser à mesma velocidade, porque custa muito dinheiro e demora muito tempo. Manuel Pinheiro, Presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão

Relativamente ao impacto das tarifas norte-americanas, Manuel Pinheiro, presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, disse que a reação dos importadores americanos foi o envio de notas de débito de parte da tarifa sobre o valor da encomenda, para acomodar o problema. Relembrou que na empresa de vinhos de que foi gestor até há seis meses, a Global Wines, “não se ajustava o preço literalmente, mas fazia-se uma oferta para compensar. Na prática, era um ajuste de preço”.

O Brasil e o Canadá

Quanto à diversificação de mercados, Manuel Pinheiro afirmou que “os políticos às vezes dizem que precisamos de diversificar mercados”. A esta ideia respondeu com “diversifiquem o país, que as empresas diversificam os mercados, e deve ser à mesma velocidade, porque custa muito dinheiro e demora muito tempo”. Explica que mudar de mercados “implica um trabalho que demora anos, de estar a investir num mercado, a criar marca, a conseguir importador e distribuidor, a apoiar o retalhista”.

Sobre os acordos comerciais da União Europeia, nota que com a América do Sul, “para Portugal importa o Brasil, em que haverá ganhos, nos outros países do Mercosul não haverá um resultado prático e sinalizável”. Aponta que “os norte-americanos com esta política deram cabo do seu principal mercado, que era o Canadá. Os canadianos bebiam muito vinho norte-americano e o mercado canadiano estourou para os americanos e pode ser uma oportunidade”, considerou Manuel Pinheiro.

A Europa e a China

Mário Jorge Machado denunciou o desequilíbrio regulatório europeu, afirmando que “na Europa somos muito bons a fiscalizar, a obrigar e até multar as empresas que produzem na Europa. O que falta são as barreiras à entrada na Europa. Produzindo fora da Europa, não temos nenhum problema com emissões de carbono, nem com produtos químicos com que os produtos são feitos”.

O empresário da Adalberto Textile Solutions, que lidera a ATV, revelou que “todos os dias chegam à Europa 14 milhões de pacotes da Shein e da Temu, em que mais de 60% são artigos têxteis”. Considera que estes pacotes “são incentivados pela política da União Europeia” porque “se comprar diretamente na China e o valor for inferior a 150 euros, tem logo um desconto de 12% em termos de tarifas”, por isso as encomendas são divididas até esse valor.

Além disso, as plataformas chinesas têm ainda a vantagem de fazer uma autodeclaração do IVA. O Tribunal de Contas Europeu fez uma auditoria às declarações de IVA e “fizeram uma estimativa de centenas de milhões de euros por ano de fraude fiscal nas declarações de IVA”. Mário Jorge Machado concluiu que “estamos a promover e a permitir a fraude fiscal e estamos a promover a compra, fazendo um desconto tarifário se comprarmos fora da Europa”.

Solução europeia passa pelos mercados único e de capitais

“Tanto a Europa como Portugal têm um problema de competitividade que já vem de longe e que se vem agravando nos últimos anos, em particular quando comparada com os Estados Unidos e a China”, referiu Rui Henrique Alves, professor auxiliar na Faculdade de Economia do Porto e um dos autores do estudo “Alterações Geopolíticas e guerra comercial: cenários, impactos e recomendações de política”. No caso de Portugal, o problema de competitividade agrava-se em relação aos outros países da União Europeia.

Na sua opinião, em termos europeus, existem duas soluções fundamentais, com implicações a médio e longo prazo. A primeira é finalizar o mercado único, “de que já se fala há décadas” e que constitui “a principal intenção económica desde a fundação da Comunidade Económica Europeia”.

A segunda é construir a união das poupanças e dos investimentos, permitindo que as empresas europeias acedam a “financiamentos em condições mais semelhantes às que as empresas conseguem nos Estados Unidos, onde grande parte do financiamento das empresas não passa pelo bancário”, refere Rui Henrique Alves.

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