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Conferências de Outono: guerra veio expor dependência energética

O tema “Energia: Europa e Guerra na Ucrânia” abriu as Conferências de Outono, que decorrem no Cineteatro Anadia. Luís Mira Amaral, Demétrio Alves, José Allen Lima e Vítor Santos, debateram a crise energética, a descarbonização, a falta de investimento em combustíveis fósseis, o aumento de preços, a dependência da Rússia e a seca extrema.

Susana Marvão 07 de Outubro de 2022 às 13:30
O debate “Energia: Europa e Guerra na Ucrânia” contou com a moderação de Vítor Santos  e a participação de Luís Mira Amaral,  José Allen Lima e Demétrio Alves.
O debate “Energia: Europa e Guerra na Ucrânia” contou com a moderação de Vítor Santos e a participação de Luís Mira Amaral, José Allen Lima e Demétrio Alves. DR
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Analisar temas atuais e de interesse nacional é o principal objetivo do evento Conferências de Outono, que teve o seu arranque no passado dia 30 de setembro, no Cineteatro Anadia. Organizados pela autarquia local e a FNWAY Consulting, os encontros serão três e irão incidir sobre o impacto da guerra na Ucrânia nos preços da energia e o seu reflexo nas economias locais, o crescimento económico em Portugal e os problemas inerentes à produtividade, as alterações climáticas, a necessidade de implementar uma economia circular e a descarbonização.

Na primeira sessão, sob o tema “Energia: Europa e Guerra na Ucrânia”, foi abordada a primeira crise energética em contexto de descarbonização, já que a fortíssima procura de combustíveis fósseis no pós-covid veio gerar o aumento de preços começado antes da guerra na Ucrânia. Um conflito que veio exacerbar a crise que já se sentia, designadamente no gás e na dependência da Rússia. Por cá, a seca extrema diminuiu drasticamente a produção hidroelétrica a que se juntou o encerramento prematuro das centrais a carvão, levando a uma grande dependência das centrais a gás natural e da importação de eletricidade de Espanha.

Maria Teresa Cardoso, presidente da Câmara Municipal da Anadia, que abriu esta primeira sessão que decorreu em versão híbrida – presencial e em streaming –, admitiu que o tema “energia” é bastante caro aos municípios e às famílias, com o peso da fatura no pós-covid a aumentar. A autarca mostrou-se particularmente preocupada com as empresas cujos processos produtivos dependem essencialmente da energia e do gás. “As nossas empresas que são o motor da economia deste país”, ressalvou aos participantes. “São as maiores empregadoras e as que garantem sustento a muitas famílias.”



O financiamento dos projetos energéticos

Paulo Ramos, fundador e CEO da FNWAY Consulting, na sua intervenção, abordou a importância dos projetos colaborativos, algo que a União Europeia tem vindo a incentivar. “São projetos em copromoção, em consórcio, que integram várias entidades, o que no tema energia se torna particularmente interessante já que podem permitir um conceito de parceria público-privada, juntando vários tipos de entidades em projetos.”

O executivo enfatizou os instrumentos financeiros do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência e do Portugal 2030, que contemplam medidas de incentivo ao investimento em produção de energia para autoconsumo para além de, entre outros, incentivos a maquinaria mais eficiente energeticamente.

O Apoio à Descarbonização da Indústria, o qual se enquadra num conjunto de medidas que visam contribuir para o objetivo da neutralidade carbónica, foi igualmente salientado por Paulo Ramos. Estes avisos pretendem promover a transição energética por via da eficiência energética, do apoio às energias renováveis, com enfoque na adoção de processos e tecnologias de baixo carbono na indústria, na adoção de medidas de eficiência energética na indústria e na incorporação de energia de fonte renovável e armazenamento de energia. “Esta medida permite investimentos que tenham impacto na descarbonização, sejam eles produção de energia, redução do consumo ou medidas de impacto ambiental. São medidas bastante relevantes pois são não reembolsáveis, ou seja, a fundo perdido.”

Na sua intervenção, o CEO da FNWAY Consulting referiu ainda o apoio do Banco Central Europeu, neste caso financiamento, projetos estratégicos e estruturais de energia. “Aqui, o grande foco é o hidrogénio, para o qual a União Europeia tem uma clara política.”

Guerra expõe a dependência energética

Para debater o tema “Energia: Europa e Guerra na Ucrânia” foram convidados Luís Mira Amaral, ex-ministro da Indústria e Energia, Demétrio Alves, engenheiro químico e ex-presidente da Câmara Municipal de Loures, José Allen Lima, ex-diretor da EDP e ex-administrador da REN, num painel moderado por Vítor Santos, ex-secretário de Estado da Energia e ex-presidente da ERSE - Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos. Um painel que focou temas como a crise energética, a descarbonização, a falta de investimento em combustíveis fósseis, o aumento de preços, a dependência da Rússia e a seca extrema.

Vítor Santos lançou para a “mesa” que a Guerra na Ucrânia colocou no topo da agenda política e mediática a elevada dependência energética da União Europeia em relação aos combustíveis fósseis, uma realidade que todos conhecíamos, cujas consequências há muito estão incluídas em trabalhos académicos e em relatórios técnicos, mas que apenas foi posta em evidência com o flagelo desta guerra.

“Esta crise energética não tem apenas reflexos no funcionamento do setor energético. Tem impactos muito abrangentes e sistémicos na economia, na sociedade e até na geoestratégia. Dada a sua transversalidade, é possível colocar inúmeras questões para o debate.” Uma delas é, segundo Vítor Santos, se não terá a Europa negligenciado a segurança de abastecimento, de resto uma dimensão estratégica da política energética, privilegiando opções de curto prazo, como o preço do gás natural. “Outra questão extremamente importante é se será possível diversificar rapidamente os fornecimentos de gás, tendo presente os elevados investimentos infraestruturais que lhe estão associados e o tempo necessário para a execução desses investimentos”, seja em terminais, armazenamento de gás ou reforço das interligações.

O ex-secretário de Estado da Energia abordou ainda outra importante questão, que é saber se tudo isto é transitório. “Esta pressão do aumento do gás natural é transitória ou é estrutural?” O especialista gostaria ainda de saber quais os impactos desta crise energética, em particular da evolução dos preços, na competitividade, no crescimento económico, no desemprego, na inflação e nos consumidores e empresas mais vulneráveis.

Crise energética em contexto de descarbonização

Luís Mira Amaral, ex-ministro da Indústria e Energia, esclareceu que esta crise energética acontece muito antes da Guerra da Ucrânia. No seu entender, este conflito bélico veio exacerbar dramaticamente uma crise que já antes se sentia. “Esta é a primeira crise energética em contexto de descarbonização”, disse aos participantes. “A retoma económica pós-covid foi muito forte e fez aumentar em muito a procura de combustíveis fósseis – petróleo, carvão e gás natural.” Isto quando o mundo, mais particularmente a Europa e os Estados Unidos, tinha, por razões de política de descarbonização, travado os investimentos e novas produções de combustíveis fósseis. “Se há uma procura muito forte e a oferta não reage... os preços começaram a disparar muito antes da guerra.”

O especialista diz que esta mudança dos combustíveis fósseis para as renováveis e hidrogénio “não se faz de um dia para o outro”, explicando que nas diversas transições a que o mundo já assistiu, como da lenha para o carvão, ou do carvão para o petróleo, “as formas de energia que estavam em funcionamento ajudaram a desenvolver as novas formas de energia”. O que não terá acontecido atualmente, já que Mira Amaral defende que a atual passagem de “testemunho” não é uma transição energética, mas antes uma disrupção. “As coisas têm de evoluir com alguma tranquilidade.”

Soberania vs. autonomia

Demétrio Alves, engenheiro químico e ex-presidente da Câmara Municipal de Loures, salientou na conferência que as questões relacionadas com a energia estão intimamente ligadas a fatores territoriais, económicos, políticos e ambientais, esclarecendo que soberania é claramente diferente de autonomia. “Soberania energética passa por poder e saber aproveitar todos os recursos endógenos de uma forma sustentada. Pode-se ter soberania e importar energia, mas temos de garantir que essa importação passe depois por cadeias de utilização racional e por sistemas produtivos que privilegiem o valor acrescentado.” Na opinião de Demétrio Alves, são poucos os países cujo grau de autonomia permita dizer que são independentes do ponto de vista energético. Noruega foi o caso apontado pelo engenheiro químico.

José Allen Lima, ex-diretor da EDP e ex-administrador da REN, na sua apresentação, focou o saldo de desativação e investimento em centrais térmicas fósseis, o fecho das centrais a carvão, falou ainda do presente e a aventura de não compra adicional de gás e o impacto nos preços de eletricidade.

Segundo dados fornecidos por Allen Lima, o hidrogénio verde pode, de facto, ajudar a absorver excedentes, mas para substituir tanto gás natural e combustíveis fósseis seria necessário ter produção de hidrogénio dedicada. “Face à imensa flutuação que a hídrica tem – e também não é fácil armazenar o hidrogénio – vejo que no futuro, se Portugal enveredar pelo hidrogénio, vai ser importador”, sobretudo nos anos secos.

A segunda sessão das Conferências de Outono está agendada para dia 28 de outubro e terá como tema “O crescimento económico e produtividade”.

 

Esta crise energética não tem apenas reflexos no funcionamento do setor energético. Tem impactos muito abrangentes e sistémicos na economia, na sociedade e até na geoestratégia. Vítor Santos
Ex-secretário de Estado da Energia e ex-presidente da ERSE