No encerramento, Filipa Pantaleão, secretária-geral do BCSD Portugal, quis sintetizar o tema em debate em três pontos, a começar pelo contexto geopolítico que deu ao biometano uma relevância que, antes de 2022, provavelmente não teria. “A segurança energética voltou ao centro das preocupações e as soluções que reduzem esta dependência devem merecer o nosso maior apoio”, sublinha, no fecho do ciclo Talks Sustainability in Action, dedicado ao tema “Biometano. do território para o futuro”, organizado pelo Negócios em parceria com a Floene.
O segundo ponto focou-se no poder de convergência do biometano, que “é um exemplo muito interessante de como diferentes agendas se podem encontrar”, nomeadamente energia, agricultura, indústria e gestão de resíduos. Para a responsável do BCSD Portugal, aquilo que durante décadas foi tratado como resíduo, agrícola, florestal ou orgânico, pode agora transformar-se num recurso energético e devolver matéria orgânica a um país “totalmente deficitário” nesse recurso. “A circularidade é exatamente isso”, aponta, lembrando que a descarbonização e a economia circular são frequentemente tratadas como agendas separadas quando, na maior parte das vezes, não o são.
O terceiro ponto é igualmente crucial e defende que o potencial está identificado, mas que a escala ainda não aconteceu. E a principal condição em falta é a modernização do licenciamento. “O que se pede não é facilitismo, é modernização. É, sem dúvida, abrir a cabeça e os licenciamentos aos tempos que correm”, afirma. Filipa Pantaleão lembra ainda que esta tecnologia tem 30 anos de história na Europa, que as diretivas são comuns a todos os países e que o que falta não é conhecimento técnico, mas confiança. “O que dificulta este licenciamento é as pessoas terem confiança, terem alguma ousadia, alguma coragem para poderem acreditar nestes projetos.” Sobre o papel do Estado, acredita que não precisa de ser sempre a máquina pública “a controlar e a fiscalizar”, até porque depois não o consegue fazer de forma eficaz e dificulta a execução dos projetos.
A rede que se renova
Gabriel Sousa, CEO da Floene, lembra que a importância da rede é ligar e conectar o país. “Gerimos redes. Aquilo que temos aqui à volta desta sala é exatamente uma rede, uma rede de entidades, de pessoas interessadas em construir uma economia em Portugal mais competitiva, mais sólida, mais resiliente e mais sustentável”, afirma.
O líder da energética diz ainda, sobre a parceria com a CAP, que “se há três ou quatro anos me dissessem que íamos estar na Feira Nacional da Agricultura, eu ia perguntar a fazer o quê”. Porém, a Floene vai já no segundo ano de presença naquele que é o maior certame do setor no país, a caminho do terceiro. Gabriel Sousa recorda a chegada do gás natural à Marinha Grande em 1997, quando a população local adotou o gás residencial por ver os benefícios nas fábricas onde trabalhava. “Aquilo que é bom para o meu local de trabalho, para a minha indústria, também é bom para a minha casa”, aponta, defendendo que esta é uma lição de adoção diretamente aplicável ao biometano.
Sobre o atraso de Portugal face a outros países europeus, aponta Itália, que em janeiro aprovou uma partilha de custos de ligação à rede até 80% a favor do produtor, como reflexo de “uma ambição muito clara do Estado italiano”. O impacto na tarifa é, diz, “residual, mesmo marginal”, enquanto o gás continua a ser a energia mais competitiva para famílias e indústrias.
Mas é o sentido de urgência que o CEO da Floene quer sublinhar, lembrando que Portugal tem, segundo os cálculos da empresa, capacidade para substituir 60% do gás natural distribuído por biometano de produção nacional, um valor muito acima da meta pública de 9% prevista para 2030. Contudo, esse potencial só se concretiza com políticas e regulamentos definidos rapidamente. “Espanha está identificada nos relatórios da European Biogas Association como o segundo ou terceiro país com maior potencial europeu. A verdade é que estas geografias estão a preparar-se para, de facto, capturar os investimentos, capturar os investidores. E os recursos não são infinitos”, avisa.
Portugal precisa de se posicionar depressa, antes que o capital disponível no mercado europeu encontre destinos mais seguros e mais maduros, defende. “Cada vez mais, quando falamos numa sala ou numa mesa, é difícil encontrar qual é o problema do biometano. E se não existe, porque é que não acontece de forma mais rápida?”, questiona.