O momento mais disruptivo da banca

“É o momento mais disruptivo de sempre do sistema bancário por vários aspetos”, sublinha Fernando Faria de Oliveira. “É uma fase interessante para a banca, é um momento de disrupção mas também é uma enorme oportunidade”, concorda Maria José Campos.
O momento mais disruptivo da banca
Ricardo Chaves, chief comercial officer da SIBS, diz que a transformação da banca tradicional é uma oportunidade.
Mariline Alves
Filipe S. Fernandes 12 de julho de 2019 às 16:00

Na opinião de Fernando Faria de Oliveira, presidente da APB, há o impacto de um conjunto de fatores como a inovação tecnológica, que alterou o negócio e trouxe novos concorrentes, questões de natureza política e económica, além da integração na União Bancária, as alterações de regulação e supervisão, as questões de natureza reputacional e as alterações profundas dos comportamentos e das preferências dos clientes e pela nova cultura que existe na sociedade.

"Todo este conjunto de fatores, que se seguiram a um período em que tivemos quatro choques de extrema relevância sobretudo os relacionados com a profunda recessão pela qual o país passou, pela evolução regulatória, que continua em marcha, pelas questões reputacionais, que afetaram muito o sector e a questão fundamental que é a era digital", concluiu Fernando Faria de Oliveira.

"Quando os bancos concorriam entre si, tinham um modelo de negócio mais ou menos semelhante e depois diferenciava-se na escala e no grau de especialização, mas a cadeia de valor era a mesma", analisa Ricardo Chaves, chief comercial officer da SIBS Partner In Payments. Hoje existem os bancos tradicionais em transformação, com um legacy que hoje ainda funciona mas não servirá dentro de dez anos, o banco puro digital e o banco montado num hub de API. São três estruturas de custos radicalmente distintas para o mesmo tipo de serviços. Adianta que terão de aprender a "trabalhar em ecossistema sobretudo no front-ended".

Legado e incumbência

"Provavelmente até foi a melhor para haver esta disrupção porque estamos numa maturidade de tecnologia interessante que nos permite abraçar isto de uma forma muito acelerada", defende Luís Melo, Diretor de Sistemas de Informação do Montepio. "Não estamos preparados ainda para atacar de uma forma tão rápida como o que queremos, tanto pela incumbência como legado e concorrentes que temos". Na sua ótica, os rivais a temer não são as fintechs, mas a Google, a Apple, a Amazon, que têm cultura distintas e que não estão sujeitas à pressão regulatória da banca e conseguem-se mexer com outra velocidade e sem os custos de estrutura que a banca tem para suportar toda esta transformação".

A formação das pessoas é outro problema para a banca, sobretudo a captação de novos talentos e de novos perfis e "diferentes daqueles que estávamos habituados a contratar", conclui Luís Melo.

Paulo Figueiredo, administrador do Banco BIG, sublinha que a "atual digitalização é transversal a todas as instituições financeiras que está a ter um impacto forte no modelo de negócio". Acrescenta que, como aconteceu em todas as indústrias, a digitalização traduz-se numa baixa de custos para o cliente final, há diminuição de margens, o que "implica uma escala maior como um número de transações mais elevada para tornar determinados negócios mais apetecíveis. É um dado que torna os custos de contexto mais baixos mas existem outras forças com os quais os bancos se têm de deparar.

Como a disrupção é tecnológica, "as empresas tecnológicas possuem o que hoje em dia há de mais importante que são os dados. Refletem os comportamentos e as preferências dos clientes e portanto temos uma entrada natural de elementos que anteriormente eram estranhos à indústria financeira, eram fornecedores de serviço e hoje entram como concorrentes com um conhecimento muito forte das dinâmicas de preferência e de atuação dos consumidores. Isto muda completamente o jogo", afirma Paulo Figueiredo. 

Portugal vs Polónia

Maria José Campos esteve 17 anos na Polónia no banco do BCP e considera que "é um dos países mais avançados em termos digitais". Refere que penetração dos canais digitais em Portugal em relação aos países do Norte e do Leste da Europa é muito mais baixa. "Acho que é mais baixa por termos uma rede de ATM e de serviços multibanco muito avançada, o que diminui a conveniência para os clientes para a utilização dos canais digitais e avançaram mais rapidamente nos outros países", avalia.

Diz ainda que na Polónia houve um grande esforço dos bancos para criarem competências semelhantes às que as big techs têm hoje em dia, como user experience, advance analytics, machine learning. Foram investimentos iniciados há dez anos, quando as soluções ainda estavam um pouco imaturas e que foram crescendo. "Em Portugal temos uma grande oportunidade, se investirmos nestas competências, machine learning, analytics, etc. Comparativamente com as fintechs não vejo razão para os bancos não conseguirem estar ao mesmo nível em termos de experiência e de proposta de valor percecionada pelos clientes", refere Maria José Campos.




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