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O papel da comunicação no renascimento da cortiça

O discurso correspondia à prática, a inovação é real, os problemas foram sendo resolvidos, por isso o sector voltou a ter credibilidade e, sobretudo, clientes.

Filipe S. Fernandes 10 de Outubro de 2018 às 15:30
A Supply Cork está-se a preparar de forma socialmente responsável para a automatização, diz Isabel Allegro. Hugo Monteiro
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Uma das batalhas da cortiça contra os vedantes concorrentes deu-se no campo da comunicação. Em 5 de fevereiro de 2018 Tom Mallen escrevia na revista Forbes um artigo intitulado "Why Wine Corks Are On The Upswing". Referia que em 1993, o crítico de vinhos Frank J. Prial previra que se poderia estar a ver "o começo do fim da rolha de cortiça nos vinhos".

Em 2002, Randall Grahm, da Bonny Doon Vineyard na Califórnia, e Jancis Robinson, crítica de vinhos do Financial Times, organizaram o funeral da rolha de cortiça num restaurante de Nova York, com um manequim de cortiça e um velório simulado, para anunciar a morte das rolhas de cortiça natural.

Em 2004, o crítico de vinhos Robert M. Parker previu que, até 2015, a cortiça seria usada para selar apenas uma pequena parte de garrafas de vinho, e que as tampas de rosca se tornariam o novo padrão da indústria.

Construir experiências

Em 2006 Jancis Robinson escreveu um artigo apologético sobre a rolha de cortiça. Para esta mudança contribuiu o "plano de comunicação com as verdades do sector, os produtos, as empresas e a indústria", referiu Joaquim Lima, director-geral da APCOR.


Desde 2000 que a comunicação é constante e permanente e os stakeholders são convidados a conhecer as empresas.


"A batalha comunicacional foi vencida porque o discurso correspondia à prática. Se dizemos que o sector inovou temos de mostrar a inovação, portanto o trabalho das empresas foi fundamental. Desde 2000 que a comunicação é constante e permanente. Trazemos os interlocutores para virem a Portugal conhecer as nossas empresas", salienta Joaquim Lima.

A APCOR estava com numa reunião com uma equipa do Compete, o programa governamental que, com as empresas do sector e as autarquias, paga este tipo de comunicação internacional, e perguntaram-lhe: 'Como é que conseguem comunicar que o produto rolha é o melhor nos mercados internacionais?' "Não vamos a feiras com stands e a distribuir folhetos mas tentamos construir experiências para as pessoas se relacionarem e ficarem a conhecer a cortiça em termos sensoriais e que esta representa para os vinhos mais do que ser um mero vedante e é um produto natural", explicou Joaquim Lima.

Fazer a rolha de cortiça perfeita

Este objectivo pode ser condicionado pela volatilidade do preço e à qualidade da matéria-prima. Por isso a eficiência é muitas vezes
a chave para se manter concorrencial.

O sector da cortiça, nomeadamente da rolha, está bem consciente dos perigos e dos desafios do futuro. Continua a ser a necessidade de termos a rolha perfeita a nível sensorial, que nunca estrague o vinho no invólucro onde é colocada, e que em termos estrutural vede e saia sem problemas", garante Isabel Allegro, CEO da Suplly Cork. "O nosso objectivo final é ter a rolha natural ou uma rolha técnica de cortiça de tal modo perfeitas que o enólogo, que as escolhe, sabe que está a utilizar produtos de alta qualidade".

Os problemas que o sector tem são a volatilidade do preço e a qualidade da matéria-prima, tanto mais que a matéria-prima representa 75 a 80% do custo final de uma rolha. Mas é "muito difícil passar os aumentos de preço da matéria-prima para os nossos clientes", refere Isabel Allegro. "Por isso temos de jogar nas eficiências da empresa, como por exemplo, aplicar a filosofia lean, desde 2012, que nos permitiu duplicar as vendas quase com o mesmo esforço físico e mental".

A inflação do preço

Isabel Allegro considera que "os preços da cortiça são um pouco inflacionados e para um produtor de rolhas é complicado". Este ano o factor de encarecimento foi a escassez de produção, mas foi um ano atípico, "pagou-se os efeitos de 2009 em que com a crise económica mundial e a tiradia foi mais pequena por diversas razões. Para o ano já vai haver uma tiradia maior".


             Há muita dificuldade em contratar pessoas qualificadas, o que preocupa a indústria da cortiça.


Normalmente é a especulação. "São coisas difíceis de controlar e há players com peso muito grande que podem influenciar o mercado e que tornam o negócio mais difícil", diz Isabel Allegro. "A matéria-prima encarece todos os anos, o nosso cliente está cada vez mais exigente, em qualquer parte do mundo. Antigamente podia dizer-se que eram os mercados mais exigentes, como os Estados Unidos ou a Austrália, mas hoje é o mundo inteiro", analisa Isabel Allegro. A principal ameaça à qualidade liga-se ao envelhecimento da floresta.

Isabel Allegro é licenciada em Química pela Faculdade de Ciências do Porto, que esteve oito anos na Seagrams Cork Department, que comprava rolhas, o que lhe permitiu conhecer a indústria, tendo em 1992 entrado para Cork Supply. Diz que grupo detido pelo empresário americano Jochen Michalski, "há várias mulheres em lugares de chefia e sentem-se valorizadas.

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