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Confinadamente monitorizando os mercados - Parte II

É caso para perguntar se a crise veio trazer novas oportunidades e uma nova era definitivamente dominada pela tecnologia.

Negócios 25 de Novembro de 2020 às 13:00
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Luís Oliveira, ISCTE-IUL Departamento de Finanças
Inês Oliveira, Risk Manager BBVA Portugal


Se por um lado a recessão global é já uma realidade, com os PIB das economias um pouco por todo o mundo a apresentarem quebras significativas, em resultado das medidas de confinamento implementadas para travar o contágio do coronavírus, por outro, os mercados financeiros têm vindo a apresentar um comportamento paradoxalmente inverso, embora com bastante volatilidade e vulneráveis a más notícias.

Após quedas acentuadas em fevereiro e março a recuperação entre abril e agosto surpreendeu todos, mesmo os mais otimistas. O principal índice da bolsa americana registou ganhos na ordem dos 27%, em contraste com a economia que caiu cerca de 33% no mesmo período. Em Portugal, a par de uma quebra homóloga superior a 16%, o principal índice do mercado de ações, registou ganhos de 12%. Índices como o S&P 500 e Nasdaq em Nova Iorque e o Xangai e Shenzhen na China alcançaram, inclusivamente, máximos históricos em agosto, mesmo perante os indícios de uma retoma económica cada vez mais hesitante e cujos avanços e recuos evidenciam um longo caminho até à recuperação total.

Como se explica esta controversa dinâmica vivida nas bolsas de valores um pouco por todo o mundo? Se muitos académicos advogam não existir correlação entre os mercados bolsistas e a economia, na realidade ninguém sabe ao certo o que é que faz subir ou descer as cotações das ações em função das decisões dos investidores. A falta de alternativas, devido a taxas de juro negativas nas economias desenvolvidas, poderá ajudar a explicar a preferência por esta classe de ativos. Ao mesmo tempo intui-se que, após uma correção acentuada no início do ano, os investidores poderão também estar a funcionar numa ótica de "otimismo por antecipação" fazendo as suas apostas e, claro, sobre reagindo à chegada de notícias.

Certo é que grande parte da atual exuberância dos mercados se deve ao papel das empresas tecnológicas cotadas, que puxam pelos índices bolsistas na Europa, nos EUA e na China. As restrições a que as populações se viram votadas foram extremamente favoráveis para as empresas de tecnologia. O teletrabalho como alternativa cada vez mais premente ao trabalho presencial, as mudanças na indústria do entretenimento e a necessidade de desmaterializar pagamentos, por exemplo, acabaram por impulsionar um enorme apetite por este setor, aumentando de forma generalizada o valor das ações à medida que os seus negócios cresceram e as respetivas avaliações subiram, com a perspetiva de que muitos dos recém-adquiridos hábitos de consumo persistirão mesmo quando se regressar à normalidade.

É caso para perguntar se a crise veio trazer novas oportunidades e uma nova era definitivamente dominada pela tecnologia. Se assim for, confirma-se a teoria de Winston Churchill: "Nunca desperdice uma boa crise."



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