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A inovação que nasce antes do mercado

A inovação começa antes da patente, da startup ou do produto pronto a escalar. Começa numa fase menos visível, mais incerta, em que as ideias ainda procuram a forma. É nesse sistema vivo, feito de empresas, talento, universidades, parceiros, tecnologia e mercado, que se desenham as respostas capazes de antecipar o futuro.

14:00
Francisco Barroso, Martim Carneiro, Afonso Cruz, Carla Patrocínio e Manuel Andrade à entrada do Técnico Protolab Galp.
Francisco Barroso, Martim Carneiro, Afonso Cruz, Carla Patrocínio e Manuel Andrade à entrada do Técnico Protolab Galp. David Cabral Santos
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Martim Carneiro, Afonso Cruz, Francisco Barroso, Carla Patrocínio e Manuel Andrade à entrada do Técnico Protolab Galp.

Antes de chegar ao mercado, a inovação passa por uma zona de incerteza onde as ideias ainda não têm uma forma final, os protótipos falham e as competências são construídas em contacto direto com problemas reais. No Técnico Protolab Galp, essa fase inicial ganha escala através da ligação entre a Galp, o Instituto Superior Técnico e três núcleos de estudantes que trabalham em energia solar, hidrogénio, mobilidade elétrica e sistemas autónomos. É na chamada base do funil que se formam equipas, se testam tecnologias e se criam condições para aproximar a investigação, a indústria e o mercado.

A talk “Potenciar a Inovação na Base do Funil”, integrada no Prémio Nacional de Inovação, partiu dessa ideia. Num setor tão determinante como a energia, a ligação entre a Galp, o Instituto Superior Técnico e os núcleos de estudantes é mais do que uma parceria institucional. É uma forma de antecipar tendências, formar competências e criar condições para que Portugal possa competir melhor em áreas críticas da transição energética, da mobilidade, da eletrificação, da eficiência e da transferência tecnológica.

Para a Galp, a relação com o Técnico tem uma base histórica. Manuel Andrade, head of open innovation da empresa, lembrou que o Instituto Superior Técnico é uma das escolas onde a Galp mais recruta engenheiros. Mas a ligação evoluiu para algo mais estrutural. “Para nós, é importante que esta relação não exista apenas numa perspetiva de transferência de tecnologia ou de conhecimento. É também fundamental promover a criatividade e a inovação que muitas vezes não acontecem apenas nas aulas da universidade”, defendeu.

O que está em causa não é apenas apoiar estudantes. É estar perto do momento em que novas competências e novas tecnologias começam a formar-se. “Sentimos que podemos ajudar a inovação a crescer e a florescer logo no início, na base do funil, com jovens que ainda nem sequer estão no mercado de trabalho, mas que pela paixão e pelas capacidades que têm, conseguem fazer trabalhos admiráveis”, afirmou Manuel Andrade.

Sentimos que podemos ajudar a inovação a crescer e a florescer logo no início, na base do funil, com jovens que ainda nem sequer estão no mercado de trabalho, mas que pela paixão e pelas capacidades que têm, conseguem fazer trabalhos admiráveis. Manuel Andrade, Head of Open Innovation da Galp

No Técnico, esta cultura ganhou escala através dos núcleos de estudantes. Carla Patrocínio, diretora da Direção de Transferência de Tecnologia do Instituto Superior Técnico, sublinhou que a instituição sempre valorizou a componente laboratorial e a ligação à indústria. Nos últimos anos estes núcleos assumiram outra relevância. “São projetos que desenvolvem inovação de uma forma muito impactante, criando soluções que podem chegar à sociedade e ao meio empresarial e despertar verdadeiro interesse”, afirmou.

A responsável rejeita a ideia de que estas estruturas sejam apenas atividades extracurriculares. “São verdadeiros laboratórios de inovação em toda a sua dimensão. Fazem inovação, preparam-se do ponto de vista profissional para trabalhar em equipas de inovação, criam impacto, têm resultados e medem-se por esses resultados”, disse Carla Patrocínio.

Laboratórios académicos com ritmo de empresa

A dimensão dos três núcleos presentes ajuda a perceber o alcance deste fenómeno. O Técnico Solar Boat reúne atualmente cerca de 60 pessoas. Já o Técnico Fuel Cell e a TLMoto aproximam-se dos 70 membros. Cada um funciona com uma escala comparável à de uma empresa de média dimensão. No conjunto, mobilizam perto de duas centenas de estudantes, organizados por áreas técnicas, gestão, comunicação, patrocínios, logística e operação. Não são grupos informais a desenvolver experiências pontuais. São equipas com liderança, orçamento, calendário, pressão competitiva e responsabilidade coletiva.

Estes três exemplos fazem parte de uma realidade mais vasta. O Técnico conta com cerca de 60 núcleos de estudantes, envolvendo milhares de alunos. Para muitos, a entrada na universidade já não se resume à escolha do curso. Passa também pela escolha do núcleo onde poderão aplicar conhecimento, trabalhar em equipa, contactar com empresas e ganhar experiência prática antes da chegada ao mercado de trabalho.

São verdadeiros laboratórios de inovação em toda a sua dimensão. Fazem inovação, preparam-se do ponto de vista profissional para trabalhar em equipas de inovação, criam impacto, têm resultados e medem-se por esses resultados. Carla Patrocínio, Diretora da Direção de Transferência de Tecnologia do Instituto Superior Técnico

Francisco Barroso, team leader do Técnico Solar Boat, explicou que o projeto nasceu ligado à energia solar, mas expandiu-se para a mobilidade a hidrogénio e para os sistemas autónomos. O objetivo já não é apenas provar uma ideia em ambiente académico. “Queremos criar uma verdadeira solução para o mercado. Já não falamos apenas de uma prova de conceito, mas de uma plataforma que pode ter impacto no mercado”, afirmou.

O desafio atual passa pela produção de uma embarcação de recreio com oito metros de comprimento, mobilidade a hidrogénio e integração de sistemas desenvolvidos pela própria equipa, incluindo hidrofoils e sistemas autónomos. O núcleo utiliza ainda uma embarcação mais pequena, o São Pedro (que aparece na imagem da talk), como plataforma de incubação e teste de sistemas autónomos antes da sua adaptação a projetos de maior escala.

No Técnico Fuel Cell, o foco está na célula de combustível e na transformação da energia química do hidrogénio em energia elétrica. “O nosso objetivo é transformar a energia química do hidrogénio em energia elétrica. Desenvolvemos carros urbanos movidos a hidrogénio”, disse Afonso Cruz, team leader do Técnico Fuel Cell. Mais do que produzir movimento, a equipa procura reduzir o consumo energético e otimizar o sistema como um todo. “Somos um núcleo focado na eficiência e na sustentabilidade”, acrescentou.

A TLMoto trabalha noutro ponto da mobilidade do futuro. Desenvolve protótipos de motos elétricas de competição e já construiu cinco protótipos em 13 anos. Martim Carneiro, team leader da TLMoto, reconheceu que o projeto está ligado ao motorsport e ao desempenho, mas defendeu que a competição é muitas vezes um laboratório avançado para a mobilidade em geral. “Sabemos que muitas inovações que chegam à mobilidade em geral começam precisamente na competição”, afirmou.

O que estes estudantes aprendem vai muito além da componente técnica. Martim Carneiro destacou “o trabalho em equipa, a gestão de tempo e a gestão de recursos”. Afonso Cruz valorizou a multidisciplinaridade. “Quando estamos a desenvolver uma célula de combustível, temos de coordenar várias mentalidades e diferentes formações”, explicou. Por seu lado, Francisco Barroso apontou outra competência essencial para qualquer contexto de inovação, “a adaptabilidade”, afirmou.

É aqui que os núcleos se aproximam do funcionamento de uma empresa. Há prazos, restrições financeiras, equipas grandes, decisões técnicas difíceis, consequências concretas e a necessidade de aprender depressa. Para Manuel Andrade, essa é uma das razões pelas quais estes projetos são tão valiosos para a Galp. “Chamam-se núcleos, mas podiam ser empresas”, afirmou. Na sua visão, estas equipas reúnem competências técnicas, mas também comunicação, marketing, captação de patrocínios, gestão e inovação.

Transferir conhecimento é também formar talento para a indústria

A transferência de conhecimento surge em várias camadas. Pode haver tecnologia que evolui para patente, produto ou startup. Mas há também transferência através das pessoas, quando os estudantes levam para as empresas a experiência acumulada na construção de protótipos reais. Carla Patrocínio sintetizou essa ideia ao afirmar que “as pessoas que estão aqui vão certamente transferir conhecimento para as empresas e para a sociedade”. O desafio é fazer com que mais tecnologias não fiquem fechadas na academia e possam chegar ao mercado.

Queremos criar uma verdadeira solução para o mercado. Já não falamos apenas de uma prova de conceito, mas de uma plataforma que pode ter impacto no mercado. Francisco Barroso, Team Leader do Técnico Solar Boat

Há, no entanto, uma tensão estrutural que atravessa qualquer processo de transferência tecnológica. Os tempos da universidade e os tempos das empresas raramente coincidem. Nas empresas, a pressão é colocar soluções no mercado, responder a clientes e acelerar decisões. Na academia, o ciclo costuma ser mais longo, porque a investigação exige maturação, validação e acumulação de conhecimento. É aqui que os núcleos de estudantes podem funcionar como uma ponte entre os dois mundos. Estão dentro da universidade, mas trabalham com prazos, objetivos, competições e níveis de exigência próximos dos de uma equipa empresarial. Essa posição intermédia permite aproximar a investigação dos desafios concretos da indústria.

Francisco Barroso tocou num ponto crítico desta dinâmica. Os núcleos renovam-se rapidamente. “Podemos ser 70 este ano, mas daqui a dois anos serão outros 70. É preciso garantir a transmissão de conhecimento”, afirmou. Este ciclo curto exige métodos, documentação, continuidade e cultura de equipa. Sem isso, a inovação perde memória. Com isso, cada geração pode avançar sobre o trabalho da anterior.

A falha é parte central deste processo

Em projetos de engenharia experimental, o erro não é uma anomalia. É uma condição de aprendizagem. Francisco Barroso foi claro. “Se não testarmos e não falharmos, nunca vamos descobrir o que pode correr mal”, afirmou. Martim Carneiro reforçou a mesma ideia. “Sabemos que é impossível fazer tudo bem à primeira”, disse. Afonso Cruz acrescentou que essa resiliência prepara os estudantes para a vida profissional.

Sabemos que muitas inovações que chegam à mobilidade em geral começam precisamente na competição. Martim Carneiro, Team Leader da TLMoto

A complexidade técnica destes projetos aparece em problemas muito concretos. No Técnico Fuel Cell, uma das maiores dificuldades está na gestão do powertrain, pela necessidade de compatibilizar a resposta mais lenta da célula de combustível com a exigência quase instantânea do motor elétrico. Na TLMoto, a bateria concentra boa parte da dificuldade, pela necessidade de reduzir peso sem comprometer segurança e capacidade de desempenho na competição. No Técnico Solar Boat, a prioridade passa pela fiabilidade dos sistemas, garantindo que os componentes elétricos e mecânicos resistem ciclo após ciclo de esforço.

Num setor como a energia, esta aprendizagem prática torna-se ainda mais relevante. Manuel Andrade lembrou que a transição energética exige competências que ainda estão a consolidar-se. O hidrogénio é um exemplo evidente. “Ainda existe pouco conhecimento consolidado nesta área. Talvez um dia exista uma engenharia do hidrogénio. Hoje, estes estudantes já estão a trabalhar nesses temas”, afirmou. O mesmo se aplica às baterias, aos sistemas de controlo, aos combustíveis de baixo carbono e às novas soluções de mobilidade.

Para a Galp, esta proximidade tem também uma leitura estratégica. Na talk, Manuel Andrade enquadrou essa necessidade com os investimentos da empresa em áreas como o hidrogénio e os combustíveis de baixo carbono, incluindo os projetos industriais que estão a desenvolver em Sines. A empresa precisa de competências que ainda estão em consolidação no mercado. O contacto com equipas que já trabalham em células de combustível, baterias, sistemas de controlo, eficiência energética e mobilidade elétrica permite acompanhar mais cedo tecnologias, talento e formas de resolver problemas que poderão tornar-se relevantes para a indústria nos próximos anos.

O nosso objetivo é transformar a energia química do hidrogénio em energia elétrica. Desenvolvemos carros urbanos movidos a hidrogénio. Afonso Cruz, Team Leader do Técnico Fuel Cell

Mas a passagem destas tecnologias para o mercado enfrenta ainda bloqueios concretos. No caso da mobilidade a hidrogénio, os estudantes identificam um ciclo difícil de quebrar. A infraestrutura é limitada porque ainda existem poucos protótipos reais para a utilizar, mas o desenvolvimento de protótipos também é condicionado pela falta dessa mesma infraestrutura. A superação deste impasse dependerá da capacidade de criar confiança tecnológica, envolver reguladores, aproximar empresas e acelerar projetos demonstradores.

Trabalhar para a soberania europeia

A soberania tecnológica europeia acrescenta outra dimensão ao debate. Num mundo marcado por tensões geopolíticas, dependência de cadeias globais e competição por tecnologia, desenvolver conhecimento próprio é uma questão estratégica. Manuel Andrade defendeu que algumas das soluções em desenvolvimento nestes ambientes poderão gerar patentes europeias. “Do ponto de vista da soberania energética e tecnológica, é muito relevante desenvolver soluções cuja cadeia de valor possamos controlar melhor”, afirmou.

O Técnico Protolab Galp ganha relevância precisamente por isso. A criação de uma infraestrutura partilhada permitiu alargar o impacto do apoio da Galp. “Ao ajudar a criar este espaço, estaríamos a apoiar todos os núcleos e não apenas dois ou três”, afirmou Manuel Andrade. É uma forma de democratizar o acesso a condições de trabalho que seriam difíceis de garantir isoladamente.

A inovação não é uma linha reta, nem começa apenas quando há um produto pronto a vender. Começa antes do momento em que os estudantes aceitam resolver problemas difíceis, empresas se aproximam da academia e universidades criam espaço para a experimentação. Num país que procura ganhar escala na transição energética, este sistema pode ser uma vantagem competitiva. A ligação entre a Galp, o Técnico e os núcleos de estudantes mostra que a base do funil é muito mais do que uma fase preliminar. É o lugar onde se formam competências, onde se testam tecnologias e no qual se criam condições para que Portugal possa competir em áreas críticas da próxima década. A inovação não é apenas pensada. É construída, testada, corrigida e preparada para chegar ao mundo real.

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