Luis Nazaré 16 de Agosto de 2010 às 11:52

Alfredo, o pescador-empresário

Alfredo passou quase duas décadas na faina pesqueira.

Primeiro nas artes de emalhar, depois no palangre. Conheceu toda a costa ocidental africana, chegou mesmo a dobrar o Cabo Tormentoso, como Bartolomeu Dias, raras vezes pondo o pé em terra. Sofreu, sobreviveu e registou mil histórias de aventuras, umas verdadeiras, outras nem tanto, para contar e recontar aos amigos e à família que por cá tinha constituído nos intervalos das viagens.

Em meados dos anos 80, o seu armador reuniu a tripulação e anunciou-lhe o fim das lides marítimas. Recebera um bom subsídio comunitário para desmantelar os seus três barcos - "Sabem, esta vida não compensa e os meus filhos já não estão para aqui virados", disse-lhes - e optara pelo conforto da terra firme. Com os cobres que lhe couberam no quinhão, Alfredo pensou, pensou, e decidiu-se a comprar um casebre sobre a costa para assar sardinhas e experimentar um negociozito.

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A coisa correu-lhe bem. Estava ainda em idade produtiva, conhecia as guelras do pescado como poucos e a Dores, sua mulher, tinha a energia e o mando certos para dirigir as operações. Da sardinha passou ao sargo, depois ao robalo e ao lavagante. Ampliou as instalações, alindou-as à sua maneira, fez crescer o negócio, contratou empregados, passou a ter contabilidade organizada e a aceitar marcações para os almoços. Naturalmente, aumentou os preços e os lucros, comprou uma carrinha BMW e uma vivenda. A Dores virou loira e uma presença regular no café central. Doze anos volvidos, o casal adquiriu um chalé num "resort" do Nordeste brasileiro.

Os filhos, três, tinham rumado a Lisboa, que o cheiro a peixe não era para eles, embora apreciassem os prazeres materiais que os pais lhes proporcionavam. Um, o mais velho, era funcionário da câmara, a segunda tinha tirado um curso de fisioterapia e estava bem colocada. O terceiro, o Ruben, era o mais promissor, o mais dinâmico, com jeito para os estudos e uma visível queda para o empreendedorismo. Pouco tempo após a sua formatura em Gestão, Ruben convence os pais a vender o chalé no Brasil para poder montar um "wine bar".

Ano e meio após a abertura, o "wine bar" colapsa, crivado de dívidas. Alfredo e Dores tapam o buraco. Nova tentativa de negócio, desta vez um stand de automóveis, novo falhanço. Após um breve período de reflexão, Ruben aceita ir trabalhar com os pais, que assim veriam assegurada a continuidade do negócio.

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Aos poucos, Alfredo passa a dedicar mais e mais tempo às suas pescarias de lazer, a sua verdadeira paixão. Dores retira-se do comando das operações e Ruben assume as rédeas do restaurante. A facturação ressente-se, mas a casa aguenta dada a reputação granjeada ao longo de tantos anos de peixe fresco. Até que um dia surge alguém interessado em comprar o estabelecimento. Alfredo e Dores torcem o nariz à ideia, Ruben não. Após dois meses de negociações e de troca de argumentos, os pais cedem. Ruben convencera-os de que a proposta era irrecusável e de que os pais já mereciam descansar de tantos anos de luta. Consuma-se a venda e reparte-se pelos três filhos uma boa fatia do seu produto.

O restaurante mudou de nome, subiu de categoria e de preços, passou a incluir sushi na ementa, mas perdeu metade da sua clientela. Ruben abriu mais um bar, que resiste. Os pais passam os dias a ver televisão.

É esta a breve história económica de um pescador chamado Alfredo. Era um homem feliz na pesca de largo e viu o mundo ruir quando o seu armador, como tantos outros, desistiu do mar. Soube levantar a cabeça, arriscou num negócio, fê-lo prosperar, conquistou estatuto social e proporcionou uma vida boa à família. Criou valor. Depois chegou a segunda geração, que se encarregou de delapidar uma parte da riqueza e revelou não ter unhas para conduzir o negócio.

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Atento, o mercado de controlo adquire a empresa, crente no seu potencial de valorização, mas falha. É o fim da linha.

Valor acrescentado de toda uma vida de luta? O bar do Dr. Ruben, que resiste.

Economista

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