João Carlos Barradas 17 de Maio de 2006 às 13:59

Khaddafi terrorista reciclado

Depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 Muhammar Khaddafi tirou as devidas conclusões de que em caso de conflito ou alta suspeita terrorista George W. Bush seria ainda mais implacável do que Ronald Reagan e apressou-se a fazer a paz com os Estados

Desde meados dos anos noventa que Khaddafi tentava ultrapassar o isolamento internacional, mas só em Abril de 1999 conseguiu a suspensão das sanções impostas pela ONU sete anos antes ao entregar para julgamento na Escócia os dois agentes suspeitos pelo atentado de Lockerbie.

Em Agosto de 2003 Tripoli reconhecia a sua responsabilidade no atentado contra o voo da Pan Am em 1988 e aceitava pagar indemnizações às famílias das 270 vítimas para livrar-se definitivamente das sanções decretadas pela ONU.

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Chegado Dezembro, após meses de negociações secretas com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, Khaddafi anunciava o desmantelamento dos programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça, incluindo um projecto militar nuclear com recurso à rede de tráfico do paquistanês Abdul Khan e um arsenal apreciável de armas químicas.

Seguiu-se o levantamento do embargo comercial imposto por Ronald Reagan em 1986 ao mesmo tempo que a Líbia deixava cair os apoios ao IRA, a grupos terroristas no Médio Oriente, em África e nas Filipinas, disponibilizando os seus serviços para obtenção de informações sobre as redes islamitas ligadas à Al Qaeda.

À medida que se sucediam as visitas de dirigentes europeus às tendas de Kadafi, ficavam sem efeito as restrições a contactos comerciais, assinavam-se contratos, trocavam-se promessas de investimentos na exploração de petróleo (a Líbia tem as oitavas maiores reservas de crude do mundo) e, finalmente, em Outubro de 2004, a União Europeia eliminava a proibição às vendas de armas a Tripoli.

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Esta segunda-feira Washington colocou, por sua vez, uma pedra sobre o contencioso com Tripoli. Na lista de estados que Washington sujeita a sanções como apoiantes de actos de terrorismo internacional restam agora Cuba, o Sudão, a Síria, a Coreia do Norte e o Irão.

À parte o petróleo Khaddafi não tem nada que o recomende desde que assumiu o poder em Setembro de 1969 e, apesar da reabilitação internacional, estão por resolver diferendos políticos de vulto com os estados vizinhos da Argélia, do Níger e do Sudão, além de processos judiciais ligados ao atentado líbio contra o DC10 da companhia francesa UTA que explodiu sobre o Sahara em Setembro de 1989 provocando 170 mortos.

O arrastado processo de cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano presos em 1999 e condenados à morte em Maio de 2004 por infectarem deliberadamente centenas de crianças num hospital de Bengazi com o vírus HIV ainda aguarda novo julgamento depois do supremo tribunal de Tripoli ter anulado as sentenças e é tido por europeus e norte-americanos como um abuso claro de direitos humanos.

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A reciclagem de Khaddafi é apresentada como caso exemplar do que de bom pode advir para um regime que renuncie a armas de destruição maciça e renegue os apoios a actos terroristas. As cenouras de investimentos, trocas comerciais, relações construtivas e escassa pressão por via de abusos de direitos humanos são, pois, apresentadas como um exemplo a seguir, mas é bem provável que em Pyongyang e em Teerão a interpretação seja outra. Quando um estado é fraco e incapaz de assegurar a sua defesa a capitulação é inevitável.

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