Khaddafi terrorista reciclado
Desde meados dos anos noventa que Khaddafi tentava ultrapassar o isolamento internacional, mas só em Abril de 1999 conseguiu a suspensão das sanções impostas pela ONU sete anos antes ao entregar para julgamento na Escócia os dois agentes suspeitos pelo atentado de Lockerbie.
Em Agosto de 2003 Tripoli reconhecia a sua responsabilidade no atentado contra o voo da Pan Am em 1988 e aceitava pagar indemnizações às famílias das 270 vítimas para livrar-se definitivamente das sanções decretadas pela ONU.
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Chegado Dezembro, após meses de negociações secretas com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, Khaddafi anunciava o desmantelamento dos programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça, incluindo um projecto militar nuclear com recurso à rede de tráfico do paquistanês Abdul Khan e um arsenal apreciável de armas químicas.
Seguiu-se o levantamento do embargo comercial imposto por Ronald Reagan em 1986 ao mesmo tempo que a Líbia deixava cair os apoios ao IRA, a grupos terroristas no Médio Oriente, em África e nas Filipinas, disponibilizando os seus serviços para obtenção de informações sobre as redes islamitas ligadas à Al Qaeda.
À medida que se sucediam as visitas de dirigentes europeus às tendas de Kadafi, ficavam sem efeito as restrições a contactos comerciais, assinavam-se contratos, trocavam-se promessas de investimentos na exploração de petróleo (a Líbia tem as oitavas maiores reservas de crude do mundo) e, finalmente, em Outubro de 2004, a União Europeia eliminava a proibição às vendas de armas a Tripoli.
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Esta segunda-feira Washington colocou, por sua vez, uma pedra sobre o contencioso com Tripoli. Na lista de estados que Washington sujeita a sanções como apoiantes de actos de terrorismo internacional restam agora Cuba, o Sudão, a Síria, a Coreia do Norte e o Irão.
À parte o petróleo Khaddafi não tem nada que o recomende desde que assumiu o poder em Setembro de 1969 e, apesar da reabilitação internacional, estão por resolver diferendos políticos de vulto com os estados vizinhos da Argélia, do Níger e do Sudão, além de processos judiciais ligados ao atentado líbio contra o DC10 da companhia francesa UTA que explodiu sobre o Sahara em Setembro de 1989 provocando 170 mortos.
O arrastado processo de cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano presos em 1999 e condenados à morte em Maio de 2004 por infectarem deliberadamente centenas de crianças num hospital de Bengazi com o vírus HIV ainda aguarda novo julgamento depois do supremo tribunal de Tripoli ter anulado as sentenças e é tido por europeus e norte-americanos como um abuso claro de direitos humanos.
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A reciclagem de Khaddafi é apresentada como caso exemplar do que de bom pode advir para um regime que renuncie a armas de destruição maciça e renegue os apoios a actos terroristas. As cenouras de investimentos, trocas comerciais, relações construtivas e escassa pressão por via de abusos de direitos humanos são, pois, apresentadas como um exemplo a seguir, mas é bem provável que em Pyongyang e em Teerão a interpretação seja outra. Quando um estado é fraco e incapaz de assegurar a sua defesa a capitulação é inevitável.
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