Presidente robô
A experiência tem demonstrado que este particular robô gera uma enorme empatia nas pessoas, sabe falar, pode dar conferências e até participar em debates. É verdade que não responde diretamente às perguntas, mas qual é o candidato que o faz?
Imagino que não seria muito complicado organizar conferências de imprensa e mesmo comícios em que o robô enunciasse o seu programa eleitoral. Afinal todos os candidatos têm os seus conselheiros e alguém que lhe escreve os discursos.
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Um robô seria aliás o Presidente ideal. Rigorosamente apartidário e independente, não teria estados de alma, não se deixaria envolver em intrigas, não cederia a agendas partidárias ou de interesses privados. O seu comportamento seria irrepreensível. Bastaria introduzir no algoritmo a Constituição para que ele nunca tivesse hesitações sobre o seu cumprimento. Bastaria ainda acrescentar o essencial das regras de conduta e poderes do Presidente para que ele nunca se envolvesse em polémicas e conflitos estéreis. Seria mesmo possível meter-lhe no cérebro artificial os discursos de todos os presidentes anteriores para que ele pudesse gerar os grandes princípios de ação consensual em defesa do desenvolvimento do país, como convém à natureza do cargo.
Um robô Presidente teria ainda a vantagem de colocar Portugal na vanguarda da inovação. Nas reuniões, conferências e visitas internacionais o presidente português seria o foco de todas as atenções mediáticas. No dia em que proferisse um discurso na sede da ONU faria história.
Infelizmente o robô em questão tem já muitos compromissos para os próximos meses e o projeto não é viável. Assim, sem esta participação original, espera-nos mais uma campanha bastante insonsa. Tanto mais que a fragmentação da esquerda, que já vai em quatro candidatos, garante a re-eleição de Cavaco Silva e muito provavelmente logo à primeira volta.
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Esta fragmentação é aliás sintomática da dificuldade da esquerda em se constituir como efetiva alternativa social. Sem entendimento possível em vários domínios fundamentais, como sejam as questões europeias e as que se prendem com a liberdade dos cidadãos e redução do peso do estado, a esquerda depende hoje exclusivamente da capacidade do partido socialista em combinar uma agenda social com a outra, decisiva, de desenvolvimento tecnológico. Coisa que o atual governo tem feito, não sem grandes dificuldades e oposições, mas que o futuro não garante. As aves agoirentas já são muitas.
No seu conjunto a esquerda transformou-se num projeto inviável e a melhor garantia de que uma direita minimamente civilizada tem o caminho livre. A estratégia fundamentalista e muito conservadora do Partido Comunista e do Bloco tem vindo a criar as condições para a entrega do poder à direita que, a menos que surja um qualquer Santana Lopes ou se desfaça em intrigas internas, poderá capturar os destinos do país por muito tempo.
As presidenciais são disso mesmo um bom exemplo. O PC, que não acredita no mérito individual, candidata um funcionário simplesmente para garantir tempo de antena para a promoção da sua visão anacrónica do mundo. O PC é cada vez mais uma igreja que anuncia o apocalipse a todo o momento e promete um paraíso lá muito para o fim dos tempos. Convence crentes, mas não cidadãos livres. O Bloco apoia Manuel Alegre com o único objetivo de sabotar o PS, de o fracionar e assim poder crescer mais um pouco à custa dos escombros. O próprio Alegre é um oximoro, fala muito de grandes princípios mas não tem nenhum. Quanto aos outros dois candidatos são episódicos e algo caricatos. Falta-lhes destino.
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O comportamento da esquerda, bem expresso nestas presidenciais, poderia dar origem a um livro cujo título seria "como entregar o poder à direita, sem esforço". Resta-nos a sorte de que hoje o essencial da política já não se decide em Lisboa, mas em Bruxelas. E a esperança, para quem a tem, de que a travessia do deserto sirva ao menos para uma renovação do pessoal e das ideias políticas da esquerda. Que bem precisa.
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