Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 27 de agosto de 2018 às 20:30

Não foi o petróleo que destruiu a Venezuela: foi o socialismo 

A Venezuela é o único país da OPEP que caiu em "default", recessão e hiperinflação. A empresa petrolífera nacional, uma das mais eficientes e rentáveis do mundo há vinte anos, acabou a importar petróleo.

Durante uns bons anos a Venezuela inspirou uma parte da nossa esquerda.

 

Por lá, controlavam-se os preços, para não subirem muito e todos poderem aceder ao que pretendiam.

 

Por lá, os salários e as prestações sociais aumentavam por decreto, porque a justiça social não pode ser limitada pela realidade orçamental.

 

Por lá, as empresas eram nacionalizadas para garantir que serviam o interesse público e não o lucro e a ganância que os privados desejam.

 

Por lá, os empresários e os proprietários eram expropriados se não obedeciam às instruções do Estado, porque a propriedade tem uma função social e não pode servir egoístas interesses privados.

 

Por lá, imprimia-se dinheiro para haver dinheiro para todos, porque quando o Estado pode imprimir dinheiro só por maldade deixa as pessoas na pobreza.

 

No fundo, por lá, seguiu-se à risca aquilo que PCP e Bloco defendem para Portugal: tudo coisas que ficam muito bem no papel, parecem muito justas, que a propriedade é um roubo e as empresas privadas só querem o mal e só não há dinheiro porque o Governo não quer e essas coisas todas. 

 

E o que sucedeu depois de todas essas políticas? Sucedeu o que sempre sucede quando se executam políticas dessas.

 

Desta vez ia ser diferente, diziam, como dizem sempre. Mas não foi: fome, miséria, supermercados vazios, gente sem comida, crianças subnutridas, falências em 90% das empresas nacionalizadas ou expropriadas, queda de 50% na produção média e perdas generalizadas, escassez de 90% em produtos essenciais, carne podre a ser vendida à falta de melhor, milhares de pessoas em fuga e a quem ninguém chama de refugiados.

 

É sempre este resultado porque não há país nenhum que consiga crescer, prosperar e distribuir riqueza ignorando os princípios básicos da economia, relativizando a propriedade privada e desconfiando do privado enquanto se sacraliza o público.

 

Tudo isto num país com enormes riquezas naturais, a começar pelo petróleo. Isso, um país com uma das maiores reservas de petróleo bruto do mundo está a passar fome. Viesse a fome de uma ditadura de direita e a Venezuela não sairia das capas dos jornais tendo em conta o número de portugueses ou filhos de portugueses que lá vivem. Mas como é uma ditadura socialista, a última de uma longa lista a fracassar, as notícias existem, mas não fazem manchetes.

 

Conheço o argumentário dessa esquerda para explicar o fracasso, porque há sempre explicações que não a falência das suas ideias: foi a queda do preço do petróleo e foi a corrupção associada ao petróleo. Balelas.

 

A Venezuela é o único país da OPEP que caiu em "default", recessão e hiperinflação. A empresa petrolífera nacional, uma das mais eficientes e rentáveis do mundo há vinte anos, acabou a importar petróleo (!!) e a ter de pedir dinheiro emprestado, depois de ter sido posta ao serviço da política de justiça social, sustentando os aumentos de salários, as prestações sociais e o crescente número de pessoas empregadas no regime.

 

A corrupção associada ao petróleo vem de um regime em que o Estado expropria e nacionaliza e põe e dispõe da vida e do património das pessoas e das empresas - terreno fértil para a corrupção, para o clientelismo, para a criação de um aparelho estadual de saque e roubo. Tudo o que foi nacionalizado pelo regime definha hoje numa combinação de corrupção com administração sujeita à política e não à gestão empresarial prudente.

 

Não foi o petróleo nem a corrupção nem a má gestão que destruiu a Venezuela: foi o socialismo, como referiu Daniel Lacalle ao elencar alguns destes dados no El Español.

 

(Para os que acham que a diplomacia económica portuguesa de alguma forma serve de contraponto ao que aqui escrevo, sugeria que encontrassem declarações de ministros portugueses dos Negócios Estrangeiros a dizer que o socialismo bolivariano era a receita a seguir, que era um caminho a imitar - isso sim seria um contraponto).   

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 
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