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Ricardo Evangelista 12 de Junho de 2020 às 18:34

A influência da perceção humana de risco nos mercados

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Com a economia global a contrair ao ritmo mais rápido de sempre em tempos de paz, é desconcertante ver as bolsas de valores a moverem-se na direção oposta. Por que será que os investidores estão a expor o seu capital num momento de tamanha incerteza, especulando sobre o desempenho de ativos de risco que, em última análise, deveriam estar diretamente relacionados com o que se passa no contexto económico que lhes subjaz? Debrucemo-nos sobre a realidade dos Estados Unidos da América. A economia americana encolheu 4,4% durante o primeiro trimestre do ano, sendo que se esperam resultados ainda piores para o segundo trimestre.

 

Basta olhar para a taxa de desemprego, que saltou de 4,4% em março para 14,7% no final de maio: no total, são já mais de 40 milhões os americanos que se viram lançados para o desemprego durante este período. Ao mesmo tempo, as mortes ligadas à covid-19 no país excedem as 100.000, com o bipartidarismo político a dificultar a tão necessária coordenação entre as autoridades federais e locais. Perante este cenário, poderíamos ser levados a pensar que jamais o mercado de ações americano estaria a registar ganhos, mas não é bem assim. Desde que atingiram os seus mínimos entre meados e final de março, os principais índices de ações entraram numa trajetória ascendente. O Dow Jones e o S&P500 treparam mais de 40%, com uma tendência semelhante a ser observada na Europa, onde o Eurostoxx50 também subiu 30%.

 

Na verdade, os mercados financeiros têm vindo a ser impulsionados pelos bancos centrais, com a Reserva Federal Americana a desempenhar um papel fulcral através do seu programa de compra de ativos, que passou a incluir dívida do setor privado. Esta medida garantiu que o acesso ao crédito por parte das empresas permanecesse em vigor, evitando inúmeras falências, que teriam prejudicado ainda mais a economia. Apesar da sua importância, as ações decisivas da FED não são a única razão pela qual os mercados financeiros continuam a ignorar as sombrias perspetivas económicas. Há uma outra dimensão a considerar e que diz respeito ao sentimento de mercado, determinado pela forma como os investidores compreendem uma certa situação.

 

Notícias recentes, que apontavam para o arranque dos testes em humanos de uma vacina contra o coronavírus, tiveram um impacto notório no apetite dos investidores pelo risco, o que beneficiou as ações e penalizou os ativos de refúgio tradicionais. É um facto que a negociação baseada em algoritmos e inteligência artificial é cada vez mais comum, mas as emoções ainda pesam bastante. Acontece que os seres humanos são inerentemente maus a avaliar o risco. Está documentado que a novidade aumenta o risco percebido, pelo que tendemos, essencialmente, a recear o que é novo, algo que vai esmorecendo com o passar do tempo. Além disso, é igualmente sabido que, em matéria de perceção de risco, os números são entorpecedores. Ou seja, neste caso, quanto maior o número de vítimas, mais insensíveis ficamos.

 

Ainda que o número de infetados e de mortos por dia seja hoje mais elevado do que quando se implementaram as primeiras medidas de confinamento, a grande maioria de nós sente-se mais seguro por poder começar a recuperar alguns elementos de normalidade (o que é também, naturalmente, ditado por necessidade económica). A mesma lógica prevalece nos mercados financeiros. Embora o estado da economia esteja consideravelmente pior agora do que no final de março, os investidores estão a encontrar motivos para ver o copo meio cheio, em vez de se resguardarem como fizeram no princípio da pandemia.

 

Analista Sénior da ActivTrades

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