Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 29 de janeiro de 2019 às 19:48

Desesperadamente procurando Salazar

Em todas essas situações António Costa disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça. E a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi a suave condescendência marialva com que olha para Assunção Cristas.

No Parlamento, Assunção Cristas perguntou a António Costa se condenava os surtos de violência verificados depois de uma intervenção policial no bairro da Jamaica, no Seixal. O primeiro-ministro perguntou se a questão se devia à cor da sua pele, insinuando que Cristas é racista. Não percebo a surpresa. Costa irrita-se muito com Cristas e quando uma pessoa se irrita assim tanto tem tendência para dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça.

 

Não que isso desvalorize o que Costa disse. Pelo contrário: as primeiras coisas que nos vêm à cabeça são sempre reveladoras, porque são o espelho dos preconceitos que nos estão entalados na garganta. Nessas primeiras coisas que nos vêm à cabeça está muito do nosso carácter e feitio. Convém estar atento aos sinais.

 

O abespinhamento de António Costa com Assunção Cristas tem uma longa história. Como esquecer os momentos em que o primeiro-ministro se referia à líder do CDS como "aquela senhora"? Ou a forma como não respondia às suas questões, diminuindo-as com ironia despropositada? Quem não se lembra de quando Costa se virou para Cristas e, desconsiderando a pergunta que lhe havia sido colocada, disse que "está sempre disponível para a convidar para almoçar um peixe grelhado em nome do nosso amor ao mar"?

 

Em todas essas situações António Costa disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça. E a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi a suave condescendência marialva com que olha para Assunção Cristas.

 

Quer isto dizer que o primeiro-ministro, tendo agora respondido como respondeu, acha mesmo que Assunção Cristas é racista? Não necessariamente. Qualquer pessoa percebe que no contexto da retórica parlamentar aquela pergunta é perfeitamente normal, como marcação de uma posição política sobre a defesa da ordem pública. Especialmente perante um líder do Governo que na ocasião estava a titubear bastante sobre esse tema, por causa da necessidade de balancear as sensibilidades das várias forças que o apoiam.

 

Se a pergunta de Assunção Cristas insinua alguma ideia-feita, bem ou mal, é apenas a ideia de que a direita é mais confiável do que a esquerda em matéria de segurança, nada mais. António Costa sabe-o bem.

 

Aquilo que a precipitação do primeiro-ministro mostra, neste caso, é outra coisa. O que ela mostra é que António Costa já foi contaminado pelo ambiente geral da esquerda portuguesa, que anda ansiosa por colar a nossa direita parlamentar à extrema-direita populista em crescimento um pouco por todo o mundo.

 

É uma ânsia patética, sem qualquer ilustração possível, mas que tem uma razão de ser profunda. Durante algum tempo a esquerda portuguesa beneficiou da vantagem estrutural de ter o quase exclusivo da legitimação do regime democrático, enquanto a direita era vista como herdeira do salazarismo, um resíduo do antigo regime que não tinha lugar no pós-25 de Abril. O problema dessa vantagem é que o tempo, por si só, trataria de a destruir. Foi o que aconteceu.

 

Na direita parlamentar não vemos seguramente o apoio a regimes ditatoriais que vemos por exemplo no PCP, e sobre isso não vislumbramos qualquer crítica ou irritação de António Costa. A direita maioritária, nos partidos e na sociedade em geral, é hoje perfeitamente democrática e liberal, formada por gerações sucessivas que não só não se definem por referência a um passado que não viveram como é na esquerda que encontram os principais atavismos da sociedade portuguesa.

 

Esta evolução gerou uma grande frustração na esquerda, que no debate político sente sempre a urgência de procurar um Salazar em cada esquina, para poder dizer que o adversário está desqualificado à partida. É como o miúdo de "O Sexto Sentido", que se fartava de ver gente morta. Nos últimos tempos, tem-no feito com redobrada esperança, por causa da onda populista. Acontece que a direita tradicional do PSD e do CDS se tem mantido saudavelmente afastada desses movimentos.

 

É por isso que a insinuação de António Costa lhe correu tão mal. Ela é tão absurda, tão para lá do que a realidade consente, que fez ricochete. Nesse triste momento não foi Assunção Cristas, mas o próprio primeiro-ministro, quem pareceu desesperado pelo regresso de Salazar. 

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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