O aburguesamento de Francisco Louçã é uma excelente notícia
Em 2014, Daniel Oliveira, ex-activista do Bloco de Esquerda, publicou no Expresso um artigo intitulado "Ou queres governar ou serás sempre governado".
Era um guia para os tempos que aí vinham. Oliveira queria "um novo sujeito político" que fosse "duro de roer" mas soubesse "chegar a compromissos" com o PS. Para isso, era preciso aceitar que os socialistas não renegassem por completo o Tratado Orçamental e os compromissos internacionais do país, por muito funestos que eles fossem.
Estas ideias vieram a concretizar-se na tentativa eleitoral de 2015 do "Livre/Tempo de Avançar". Tentativa falhada mas que, como é sabido, acabaria por ter aparente sucesso por outros meios.
Francisco Louçã já não era, então, o coordenador do Bloco. Porém, da sua sempiterna cátedra tutelar, resolveu responder a Daniel Oliveira. No site "Esquerda.net", estabeleceu os critérios de uma política de esquerda: denúncia integral do Tratado Orçamental e da obsessão "austeritária" com a eliminação de défices; preparação de Portugal para a saída do euro; recusa de compromissos com qualquer partido que não reconheça estas prioridades.
Depois de a polémica, com bastante notoriedade na época, ter desaguado no Facebook, Louçã chegou ao ponto de acusar Oliveira de querer sacrificar as suas ideias de esquerda por "um lugar de secretário de Estado" de um governo PS.
Isto era Louçã vintage. Na irredutibilidade estratégica de controleiro revolucionário. E naquela largueza de critério táctica em que é especialista, com a desqualificação moral do adversário e a imputação difamatória de motivações pessoais.
Entretanto, as eleições de 2015 geraram uma coligação de governo de esquerda, que tem merecido o empenho entusiasta do próprio Louçã. Basta ver a forma como, ao estilo dos melhores políticos pragmáticos, tem valorizado a política de redução do défice e as nuances entre a austeridade do passado e a austeridade do presente. Como as pessoas mudam.
Na semana passada, tivemos a cereja no topo do bolo: Louçã foi indicado pelo Governo para o conselho consultivo do Banco de Portugal – a instituição que tem a missão legal de impor por cá a "ortodoxia" do euro.
O que diria o antigo Louçã do novo Louçã? Um ensaio: o histórico revolucionário sofreu o abraço de urso do partido da esquerda burguesa, transformando-se em mascote amestrada do poder vigente, que se limita a gerir a ordem capitalista, em vez de a derrubar. Com esta honraria, qual Varoufakis dos pequeninos, Louçã terá mais um púlpito para dar largas à sua vaidade intelectual, perante gente que talvez lhe agradeça as prédicas heterodoxas mas que certamente não desejará seguir os seus conselhos.
Dito isto – e colocando de parte a ironia (que é forte demais para não ser registada) –, discordo de alguma direita que tem defendido a indicação de Louçã para o Banco de Portugal como um erro. Louçã tem currículo para isso e o órgão para o qual foi nomeado necessita de heterodoxia se quiser servir para alguma coisa.
Por outro lado, qualquer defensor da ordem capitalista deve ficar feliz sempre que a realidade trata de social-democratizar um marxista e converter um revolucionário às fronteiras do sistema.
A necessidade de apoiar um governo moderou Louçã, que agora faz parte do jogo. As suas ideias já não incentivarão o derrube da ordem liberal; servirão antes para aperfeiçoar essa ordem – a qual, com todas as insuficiências, ainda é a que mais prosperidade e felicidade trouxe aos povos. O aburguesamento de Francisco Louçã é uma excelente notícia.
Advogado
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