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Francisco Mendes da Silva - Advogado
04 de Fevereiro de 2020 às 21:03

Ventura em quarentena

Mas Ventura também não é um epifenómeno. Consciente ou inadvertidamente, acaba por ser a representação portuguesa do ressurgimento das ideias autoritárias na Europa. E essa tendência parece tão global e poderosa que torna irrelevante que cada um de nós decida falar dele ou não.

Há pessoas que falam muito de André Ventura porque acham que se deve falar de André Ventura. Mas há outras pessoas que ainda conseguem falar mais de André Ventura: são as pessoas que acham que não se deve falar de André Ventura. Essas pessoas estão sempre a falar por cima das outras, exasperadas por se falar tanto de André Ventura, e nunca perdem uma oportunidade, quando vêem alguém falar de André Ventura, para também elas falarem de André Ventura, culpando quem fala de André Ventura pelo crescimento de André Ventura e, de caminho, aproveitando para explicar e justificar André Ventura. Dizem que não gostam dele, mas uma pessoa acaba de as ler ou de as ouvir sempre com a sensação de que, para essas pessoas, André Ventura é o melhorzinho que se arranja por aí, porque pelo menos, justiça lhe seja feita, é um desbocado contra “o sistema”.

O que eu gostava mesmo que me explicassem é como é que se faz isso de deixar de falar de André Ventura. Como é que, de um momento para o outro, se orquestra um silêncio, se suspendem todos os comentários e se põe Ventura em quarentena mediática? Parece-me impossível. Mais: parece-me de uma grande arrogância alguém pensar que tem em si mesmo o poder de, com o silêncio, impedir quem quer que seja de ter exposição pública. Como se o mundo fôssemos só nós, os nossos grupos de amigos e as caixas de ressonância das nossas redes sociais.

Aliás, se Ventura e o Chega têm beneficiado de alguma coisa é precisamente do silêncio que muita gente se impôs a si mesma. Andámos nos últimos meses entretidos com a merecida implosão do Livre quando tínhamos ali também outro foco de polémicas – as assinaturas falsas, o programa rasgado, a infiltração de neonazis – capaz de descredibilizar mais um autoproclamado herói da credibilização da política.

De qualquer modo, é bom lembrar que Ventura não é um bobo da corte. É um deputado da nação, com eleitores e apoiantes, cujo desalento convém que não seja deixado à mercê de quem apenas o quer canibalizar para proveito pessoal, sem qualquer preocupação com a apresentação de soluções políticas decentes e viáveis. Não querer falar de Ventura, sujeitando-o ao contraditório democrático, é também querer calar ou desviar o olhar desse eleitorado. O que só pode resultar em desastre.

Se Ventura e o Chega têm beneficiado de alguma coisa é precisamente do silêncio que muita gente se impôs a si mesma.

Mas Ventura também não é um epifenómeno. Consciente ou inadvertidamente, acaba por ser a representação portuguesa do ressurgimento das ideias autoritárias na Europa. E essa tendência parece tão global e poderosa que torna irrelevante que cada um de nós decida falar dele ou não.

Hannah Arendt, num texto chamado “Estado-Nação e Democracia” (publicado recentemente por cá na colectânea “Pensar em Corrimão”, da Relógio d’Água), avisa que “o povo considerou a sua emancipação política, na medida em que é realizada num Estado-nação plenamente desenvolvido – a sua admissão na esfera política, na qual todo o cidadão tem direito a ser visto e ouvido –, na sua maioria substancialmente menos importante do que a garantia por parte do seu governo de que continuaria autorizado a viver no território que a história e a ancestralidade designaram como seu”. Arendt percebeu a História como poucos – e a História, tantas décadas depois, continuar a dar-lhe razão. Os valores liberais da democracia e do humanismo foram sempre muito menos importantes no coração dos povos do que o valor da manutenção do território na propriedade exclusiva de comunidades cultural e socialmente fechadas.

Quando utiliza o racismo e xenofobia como armas, Ventura está a navegar os ventos sinistros, mas favoráveis, da História, numa época em que mais uma vez a Humanidade se confronta com a dúvida sobre se é possível a democracia sobreviver ao teste do cosmopolitismo. É preciso que falemos disso.

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