Em vez de lhe congelar os óvulos, contrate-a!
Há coisas que não se escrevem nos jornais, mesmo naqueles que são lidos por empresários, e que nem tão-pouco se discutem ao telefone, que já há gente suficientemente escaldada com as escutas, mas que se pensam. E se fazem. Como, por exemplo, fugir a contratar mulheres porque lhes pode passar pela cabeça engravidar, respondendo ao apelo de que a pátria precisa de mais soldados, ai desculpem, de mais contribuintes para pagar as pensões aos velhinhos. Aliás, pelo andar da carruagem, daqui a pouco, também não se empregam homens não lhes vá passar pela cabeça seguir o exemplo de Mark Zuckerberg, e tirar uma licença de paternidade de dois meses, mas adiante.
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Sendo assim, e já que não parece fácil copiar o exemplo de Sillicon Valley, sugerindo às funcionárias que congelem os óvulos para utilizarem apenas depois de esgotado o seu prazo de validade - na empresa, evidentemente -, o que temos é menos mulheres com emprego, embora tenham mais habilitações. E com salários mais baixos, certamente numa versão de pagamento por conta, descontando-se logo as horas que o patronato imagina que vão faltar. Do mesmo modo, nem o António Costa nos seus dias mais optimistas se atreve a prometer alterar o indicador que confere às mães de família um lugar cativo nos números do desemprego.
Mas, como sempre, tudo isto é uma estratégia com vistas curtas. O que os chefes entenderiam, se prestassem atenção, é que a nata da nata dos seus empregados são as mães da casa.
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O facto é comprovável logo às primeiras horas da manhã, porque os seus despertadores humanos não têm o modo "snozze", e as crianças têm de chegar à escola. Quando o resto da malta pica o ponto, já elas despacharam metade do serviço, a um ritmo disciplinado digno dos anais da produtividade. Afinal, só mentes treinadas em "multitasking" seriam capazes de preparar a argumentação para uma defesa em tribunal, ou um relatório e contas, enquanto emparelham meias, ajudam os filhos a fazer os TPC, e despacham o jantar. E "workshops" não lhes faltam. Segundo um estudo do Instituto de Ciências Sociais, as portuguesas gastam 17 horas por semana em cuidados com filhos e familiares (contra as 9 dos homens), e um total de 21 horas em tarefas domésticas (8 no caso deles). Com especialidade, em resolução de conflitos, enfermagem e lavandaria, enquanto eles só têm um MBA em acartar o lixo e trocar lâmpadas fundidas.
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São, também, peritas em gestão do tempo, porque qual é a mãe que quer deixar o filho mais horas no ATL? O que, do ponto de vista do patrão, se traduz só em vantagens: as mães-trabalhadoras não inventam reuniões só para mostrar trabalho, não prolongam aquelas a que assistem com perguntas idiotas, e não saem para almoços sem fim, nem sequer para escapadelas para ir beber café ou fumar um cigarro. Quando fecham a loja, o serviço está feito.
Mas se dúvidas houvesse, um estudo recente da Harvard Business School sobre os filhos de mães que trabalham, com um universo de 13 mil mulheres e 18 mil homens, de 24 países desenvolvidos, é a cereja no topo do bolo. As mães-trabalhadoras são tão competentes que as suas filhas têm quatro vezes e meia mais probabilidades de estarem empregadas, ocuparem cargos de chefia (mais 33%) e de ganharem mais (23%) do que as mulheres cujas mães ficaram em casa a tempo inteiro. Quanto aos filhos, são homens que se ocupam mais dos seus próprios filhos e dividem as tarefas domésticas. Quer maior prova de que sabem o que fazem? Mães, deitem fora a culpa, e patrões, contratem-nas!
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Jornalista
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