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Manifesto a favor do “passeio fútil”

Os que cascavam nos “ricos” e diabolizavam as grandes empresas passaram a dizer delas maravilhas, porque afinal dá jeito que sejam multinacionais e até tenham fundo de maneio para poderem oferecer ventiladores e máscaras, quando não mesmo hospitais.

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Estou mais volátil do que um cata-vento. A uma hora sinto uma coisa, e na hora seguinte a contrária, e posso mesmo mudar de opinião uma terceira vez antes de o Sol se pôr (que felizmente, é a cada dia mais tarde).

Por exemplo, às 10h entro em pânico com a ideia de que a quarentena pode acabar sem que tenha tido tempo de completar a lista de todas as coisas que me propus fazer, às 13 h, enervo-me com o que vai acontecer à economia se tudo continua fechado a sete chaves, e às 17h, parece-me insuportável ficar mais um dia que seja sem ver os meus netos e os meus amigos, numa montanha-russa de emoções que deixam qualquer um de língua de fora.

 

Sinto também uma facilidade grande em fabricar ódios de estimação. Mais uma sessão de pivô de noticiários a recitar poesia da sua lavra, com uma parábola no fim, e destruo a televisão; mais uma reportagem que termina com o repórter a dizer que nem os "passarinhos chilreiam", ou espantado com o agricultor que continua a cavar a terra, para lá semear, imagine-se, batatas e cenouras, e ponho a séria possibilidade de engolir o gel desinfetante que tanto me custou a encontrar. Já para não falar na vontade de pisar o telemóvel à vigésima mensagem com um novo episódio de uma qualquer teoria da conspiração de um vírus fabricado para que a China domine o mundo, ou com a mais recente declaração de Donald Trump, que faz mais estragos do que a pandemia em si.

 

A minha alergia aos discursos vira-casacas também aumentou na proporção dos pólenes que vejo a voar da minha janela. Os que cascavam nos "ricos" e diabolizavam as grandes empresas passaram a dizer delas maravilhas, porque afinal dá jeito que sejam multinacionais e até tenham fundo de maneio para poderem oferecer ventiladores e máscaras, quando não mesmo hospitais.

 

Mas o que me faz espirrar sem parar (não é tosse, não se assustem) são as demonstrações de autoritarismo histérico daqueles que são mais papistas do que o Papa e se regozijam com a notícia de que desde que as escolas fecharam só 5% das crianças, assim como 5% dos adultos, saem para dar passeios a pé, escandalizando-se por esta percentagem ser de 9% no caso dos mais idosos. Havia mesmo um jornal que classificava este direito previsto pela lei, como um desprezível "passeio fútil", em lugar de o glorificar.

 

Cá por mim, proponho um abaixo-assinado a favor da "futilidade" de cada família deixar as suas crianças, respeitando a distância social, correrem e saltarem ao ar livre, brincarem na rua - finalmente sem carros, como os saudosistas há anos exigem -, até para que possam perceber que o mundo lá fora não acabou, engolido por aliens iguais aos dos jogos de consola em que mergulham as restantes 23 horas 30 minutos do dia. Afinal, até os presos de alta segurança gozam de uma hora de recreio, e o senhor primeiro-ministro bem frisou que era permitido o "acompanhamento de menores em períodos de recreação ao ar livre de curta duração". Mais faltava, que fossem só os animais de companhia. 

 

Pensando bem, vou mais longe: peço às comissões de proteção de menores e às organizações que velam pelos interesses das crianças que sinalizem os miúdos que não têm a oportunidade de o fazer, sobretudo agora que começou um terceiro período em telescola - se a resposta for qualquer coisa como "Mas, são eles que não querem!" chamava a polícia. E estendo o apelo aos responsáveis da saúde mental para que ponham todos os adolescentes e adultos, novos ou mais velhos, futilmente a esticar as pernas e a cabeça.

 

Quanto aos comentadores de pedras na mão, quero vê-los daqui a uns meses, a discorrerem sobre os malefícios da obesidade, recriminando os balofos que preguiçosamente aproveitaram a quarentena para não sair do sofá. Já os estou a ouvir - "Então, mas o senhor não conhecia o artigo 5.º da Lei do Estado de Emergência?" Vai uma aposta? 

 

Jornalista

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