Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 23 de outubro de 2018 às 20:10

O narcisismo é tramado!

De facto, o narcisismo é uma coisa tramada! E para infelicidade do comum dos mortais as personalidades com estes traços são irresistivelmente atraídas por lugares de poder, sejam na política, nos tribunais ou, é verdade!, no jornalismo.

Estou preocupada, muito preocupada. Como posso não estar se no espaço de uma semana dei por mim a considerar a intervenção de Garcia Pereira, no jornal da TVI, como clara, lúcida e objetiva e dias depois me senti capaz de assinar por baixo o artigo de Daniel de Oliveira, no Expresso.

 

O homem capaz de provocar este estado de coisas foi obviamente o juiz Carlos Alexandre, e a entrevista que deu à RTP, ignorando o mais elementar direito de reserva, e em que deu a entender ao país que bastou virar costas por uns míseros dois dias para que a justiça portuguesa caísse por terra.

 

Com um sorriso modesto, e baixando os olhos aqui e ali, foi insinuando que não podemos confiar nem em algoritmos ou na imparcialidade dos tribunais, muito menos num colega seu que aceita processos a que faltam "caixas", e não parece ter a capacidade de levar a coisa a bom termo. Por outras palavras, Carlos Alexandre era o único capaz de meter os bandidos na prisão. Os seus recém-adquiridos "fãs" tinham ali a confirmação de que precisavam, era ou ele ou o dilúvio. Mas, como toda a gente sabe, os "inimigos" da Justiça preferem sempre o dilúvio.

 

Para aqueles que estão enfeitiçados pelo seu próprio reflexo, há sempre inimigos, cabalas, conspirações. Perante um revés, sem uma gota de autocrítica, o que explica que repitam incessantemente os mesmos erros, assumem-se perpetuamente como vítimas. Em graus diferentes, e com gravidades diferentes, mas a argumentação é tendencialmente sempre a mesma: a culpa é dos outros.

 

Carlos Alexandre não ficou sem o processo porque não lhe calhou em sorte, assim como o próprio engenheiro Sócrates não está a contas com a justiça porque não consegue explicar de onde lhe veio o dinheiro, nem tão-pouco o senhor deputado do PS Carlos Pereira é contestado pela escandalosa pretensão de ocupar um cargo cuja função é estabelecer o equilíbrio entre a atuação das empresas e do próprio Estado, governado pelo partido a que pertence e que o nomeou, mas por ostensiva má vontade da oposição.

 

De facto, o narcisismo é uma coisa tramada! E para infelicidade do comum dos mortais as personalidades com estes traços são irresistivelmente atraídas por lugares de poder, sejam na política, nos tribunais ou, é verdade!, no jornalismo. Gente que, como descrevem os manuais deste distúrbio, se considera basicamente suficientemente excecional para ser excluída das regras e padrões impostos aos outros. Ou seja, que perante uma sanção ou um castigo, em lugar de acatarem a pena, veem nela a confirmação da perseguição de que se queixam. São todos náufragos, heróis que o mundo não reconhece. Não lhes podemos ceder.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

pub