Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 11 de abril de 2017 às 20:11

Torremolinos 2018, "here we come"!

No pós-estragos, muitos "finalistas" continuam à solta no facebook, justificando o vandalismo com a falta de álcool. Os pais continuam a fingir que não veem.

Não é o primeiro ano, nem o segundo, nem o décimo em que as viagens de finalistas resultam em desgraça, algumas infelizmente até com mortes trágicas. Mas, pelos vistos, nada disto serviu de aviso, e em lugar de passarem de moda, tornaram-se quase obrigatórias. Milhares de pais de uma nação tão ofendida com o senhor holandês que a acusou de gastar tudo em copos e sexo, desembolsam mais de 600 euros para que os seus filhos entre os 14 e os 17 anos celebrem com álcool a possibilidade de, eventualmente, virem a acabar o 9.º ou o 12.º ano. 

 

Subjacente a tudo isto parecem estar duas ideias peregrinas: a primeira, de que os filhos têm de ser recompensados pelo esforço desumano de andarem na escola, merecendo "uma semana longe das responsabilidades", com "estragos e coisas partidas, como é normal numa viagem de finalistas"; e a segunda, igualmente grave, que as bebedeiras são um rito de passagem, coisa sem importância.

 

Conscientes destas vantagens, os adolescentes fazem o que lhes compete chateiam com a insistência de que só eles são capazes, rebatendo argumentos com um "todos os outros pais deixam", levando-os a capitular. As escolas, as agências de viagens e os empreendimentos turísticos, por seu lado, especializam-se em sossegar os pais, com a promessa de acompanhamento e equipas de paramédicos (onde é que já se viu!), simultaneamente oferecendo aos miúdos tudo aquilo que o bom senso e a lei proíbem: entradas em discotecas, acesso a álcool, a sexo e a batalhas campais, e claro à droga que escapou às fiscalizações da pobre GNR e aos dois agentes da PSP que mandamos para lá fazer praia.

 

E se não fosse o Facebook, provavelmente os desacatos da sequela "Torremolinos 2017" terminariam com a absolvição das partes envolvidas, com os pais a alegarem que não foram os filhos deles, ou que os estragos foram coisinhas menores, a agência a queixar-se do hotel, os "finalistas" a acusarem os colegas (do Norte, ou do Sul, tanto faz). Mas o que nos revelam os comentários na página do hotel em questão é de pôr os cabelos em pé: aqueles que os escrevem em lugar de pedir desculpa, vitimizam-se e insultam, sem consciência sequer de que tudo o que dizem pode ser usado contra eles. Perante a acusação de vandalismo admitem-na, mas justificam-na com queixumes de toalhas por trocar, camas por fazer, duches de água fria ou baratas e formigas. Ah, e claro, com o "comer" - uma menina escreve que "a falta de comida saudável é, também, algo extremamente grave", pomposamente recordando que não pagou um hotel de quatro estrelas "para comer fritos e massa a semana toda". Ainda por cima sem bar aberto, imagine-se. Que fazia parte das Condições de Estadia, que os pais assinaram!  Há mesmo quem se indigne: "Foi colocado um segurança à entrada do hotel para revistar qualquer finalista que entrasse com bebidas alcoólicas." A sério? Não só não lhes deram o prometido, como ainda os impediam de se enfrascarem às escondidas, de subir aos telhados, depois de incendiarem quartos! E estes comentários os respetivos pais também não os leem?

 

 Preocupante é que tenho a certeza de que dentro de dias a opinião pública vai mudar, com pais a alegar que é tudo um exagero, que os inocentes (os deles) pagam pelos culpados (os dos outros), e aos poucos os maus da fita vão ser (só) os "espanhóis", porque os nossos meninos são uns anjos. É difícil ser pai e mãe, e todos cometemos erros, mas o grave é quando não os corrigimos a tempo, mas suspeito de que... Torremolinos 2018, "here we come"!

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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