Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 07 de agosto de 2018 às 22:27

Pidjiguiti e a história portuguesa contemporânea

Poucos acontecimentos tiveram uma repercussão tão longa e estrutural na História de Portugal como a revolta e, subsequente, massacre dos trabalhadores negros do porto de Pidjiguiti na Guiné-Bissau.

E, curiosamente, tão poucos acontecimentos são tão esquecidos da historiografia oficial a ponto de se poder afirmar sem receio que a grande maioria dos portugueses não sabe o que aconteceu nesse dia 3 de agosto de 1959. Esse esquecimento pode perceber-se se pensarmos que as autoridades portuguesas levaram a cabo um impiedoso massacre de marinheiros e estivadores negros, matando dezenas de pessoas desarmadas.

 

Vejamos o que se passou. A Casa Gouveia, parte do império da Cuf (Companhia União Fabril), era uma das maiores empresas locais, com interesses que se estendiam à importação e exportação de bens e à operação portuária. A Casa Gouveia tinha muitos empregados entre marinheiros e estivadores.

 

Nessa época, o sistema de pagamento era semelhante ao que Ferreira de Castro descreveu em "A Selva". Os trabalhadores recebiam essencialmente em géneros alimentícios (arroz) e uma pequena parcela em dinheiro. Como esse dinheiro era insuficiente para adquirir os restantes meios de sobrevivência, muitos acabavam em dívida para com a própria Casa Gouveia, onde se abasteciam, ficando completamente nas suas mãos. Um verdadeiro sistema de escravidão disfarçado.

 

Perante essa situação os trabalhadores organizaram-se e começaram a lutar por melhores condições. Outras empresas cederam e aumentaram os salários. Mas a poderosa Casa Gouveia não. Os trabalhadores deliberaram então entrar em greve com ocupação das instalações a partir de dia 2 de agosto. Uma genuína revolta operária.

 

No dia 3 de agosto, um dos responsáveis locais da Casa Gouveia chama a polícia que intervém com a maior das brutalidades. As forças da ordem avançam sobre os trabalhadores desarmados e abrem fogo sem piedade. Estima-se que o número de mortos nesse dia tenha sido superior a 50 pessoas, um número sujeito a muita controvérsia. Como muitos corpos foram atirados à água pelas forças portuguesas de forma a nunca serem encontrados, o número total de pessoas mortas nunca se saberá com total certeza. 

 

Mas como pode uma revolta operária, na longínqua Guiné-Bissau, ser um dos acontecimentos mais relevantes da história portuguesa do século XX?

 

É que esta brutal repressão levou o PAIGC, então, a dar os seus primeiros passos, a convencer-se de que a via pacífica para a independência era impossível. E logo no mês seguinte decidiram encetar os preparativos para a luta armada. O exemplo da vizinha Guiné-Conacri independente em 1958 num processo essencialmente eleitoral e pacífico ficava definitivamente afastado pela intervenção portuguesa em Pidjiguiti.

 

E todos sabemos como acabou essa guerra. A Guiné declarou unilateralmente a independência em setembro de 1973, logo reconhecida por dezenas de países, e pouco depois dá-se em Portugal o 25 de Abril de 1974.

 

Entre as múltiplas causas do 25 de Abril avulta, naturalmente, a derrota militar, política e diplomática portuguesa na Guiné-Bissau.

 

Portugal mudava finalmente de regime. Uma longa cadeia de acontecimentos que teve como marco importante a revolta operária de agosto de 59 na Guiné-Bissau.

 

Sem conhecer a sua história, os portugueses não se podem afirmar na Europa nem na cena internacional. Por isso, aqui recordamos este importante acontecimento da segunda metade do século passado.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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