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Opinião
Jorge Marrão 27 de Maio de 2020 às 19:22

Nobre povo e valente Estado

Há sempre um fascismo, nacionalismo e populismo úteis, para justificar o debate estéril com vista a relembrar os tempos do Estado Novo. Ninguém constrói o Novo Estado, enquanto se viver para se relembrar do Antigo.

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A FRASE...

 

"O realismo, até evidência em contrário, é a melhor arma para enfrentar as dificuldades."

 

Celso Filipe, Negócios, 27 de Maio de 2020

 

A ANÁLISE...

 

A combinação entre dois políticos de matriz popular, o Presidente da República e o primeiro-ministro, em que cada um precisa de ser amado para aguentarem o poder, não augura nada de útil para a mudança do país. Escoraram a sua vida política rigorosamente ao centro para benefício próprio, e duvidoso para o país, oscilando ao sabor do vento sempre com um pé ao centro, fazendo as espargatas necessárias para conservar o poder, permitindo o populismo extremista de esquerda, tolerado pelos velhos democratas de abril e pelo romantismo dos tempos de "compagnon des routes", mas cismando no da direita intolerada quando esta se afirma na faixa da população abandonada pelas elites do politicamente correto e na dos descamisados do crescimento económico de 0%, baralhando a ideologia da luta de classes.

 

A divisão atual do país não deveria assentar em esquerda e direita, mas sim entre reformistas e não reformistas, preferências por capitalismo de Estado ou privado, europeístas da disciplina da moeda forte ou europeístas mutualistas, estatistas ou não estatistas, protecionistas ou defensores do comércio internacional, regionalistas ou descentralizadores, os que têm uma ideia para Portugal e os das medidas cocktail avulsas para dizer que se governa, entre os corruptos (todos aqueles que parecem fazer pela vida, os jogadores) e os asséticos (os que vivem dos impostos, da independência da sabedoria universitária, e da pureza ideológica, os treinadores de bancada) e finalmente entre os protetores da iniciativa empresarial, dos lucros e das poupanças ou controladores da iniciativa empresarial, discriminatórios dos lucros e promotores do consumo privado.

 

A divisão no povo e nas elites não é entre os povos ou elites de direita ou de esquerda, mas sim entre os que querem protecionismo, amparo e intromissão estatal para educar e "elevar" o comportamento de todos, porque não acredita no seu semelhante, os igualitários, ou os que preferem o risco da liberdade e as boas e más consequências do comportamento da populaça e das elites, os libertários. A esquerda e a direita existem mediaticamente, aquela por controlar a maioria da comunicação social, e esta porque o outro lado precisa do seu oposto. A direita é condicionada pela autorização da esquerda oficial e oficiosa. Estas iniciaram-se chamando fascista a Freitas do Amaral para o convidar mais tarde a participar na sociedade da governação do centrão, quando este se dobrou ao institucionalismo podre da república do politicamente correto.

 

Há sempre um fascismo, nacionalismo e populismo úteis, para justificar o debate estéril com vista a relembrar os tempos do Estado Novo. Ninguém constrói o Novo Estado, enquanto se viver para se relembrar do Antigo. Poucos querem a Europa da competição, mas sim a Europa dos subsídios. O nobre povo e nação valente perderam-se nesta democracia embrulhada em papel falso de alternativas. Só uma é tolerada: a dos populares, a da eliminação das desigualdades e a do Estado centralizador. Até chegarmos ao destino do empobrecimento mantemo-nos nobres e valentes, mas justos. Orgulhosamente sós.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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