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Luís Todo Bom - Gestor de Empresas 20 de Janeiro de 2021 às 20:21

A desculpabilização sistemática do erro

As empresas toleram alguns erros ligados à experimentação de novas tecnologias, produtos ou processos, mas com uma exigência imediata de desenvolvimento dum processo sistemático e obrigatório de análise exaustiva das razões do erro.

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Os portugueses desenvolveram um conjunto de provérbios e afirmações de desculpabilização do erro, que utilizam com enorme frequência: “Errar é humano”; “Só não erra quem não faz nada”; “ Não vale a pena matutar no erro, temos é de olhar para a frente”.

Após a desculpabilização, segue-se, normalmente um auto de fé: “Sei que errei, mas não voltarei a errar.”

Claro que volta a errar, justifica-se com um diferente enquadramento em que o erro ocorreu, repete as afirmações iniciais, e prossegue, com absoluta impunidade e a indiferença do resto dos cidadãos.

Nunca se ouvem afirmações do tipo: “Quem estuda não erra”; “A repetição dos mesmos erros é inadmissível”.

Quando ensino “gestão da inovação” aos meus alunos, explico-lhes que uma das características das empresas inovadoras reside numa cultura de tolerância ao erro, aplicando a expressão correcta, “só não erra quem não experimenta novas abordagens”.

Mas esta tolerância tem limites, ou seja, as empresas toleram alguns erros ligados à experimentação de novas tecnologias, produtos ou processos, mas com uma exigência imediata de desenvolvimento dum processo sistemático e obrigatório de análise exaustiva das razões do erro.

Em sistemas de inovação aberta, as empresas desenvolvem modelos integrados de aprendizagem, tanto dos seus erros, como dos erros das empresas que integram as suas redes de inovação, num caminho de melhoria contínua.

A partir desta análise, as empresas inovadoras são capazes de desenvolver processos sistemáticos de novas abordagens e de transferir o conhecimento apreendido, transversal e rapidamente por toda a organização.

São as “learning organizations”.

Podia esperar-se que, com esta benevolência para o erro, Portugal fosse um país profundamente inovador no seu aparelho produtivo.

Infelizmente, não é o que se verifica, já que o país tem a sua economia concentrada em sectores industriais tradicionais, pouco inovadores, e em serviços de comércio, turismo e restauração de baixo valor acrescentado.

Esta indiferença nacional perante o erro e a ausência de processos estruturados de aprendizagem, a partir dos erros cometidos, é dramática em termos da construção duma cultura de responsabilidade e de utilização intensiva de conhecimento, ingredientes essenciais para o desenvolvimento do país.

Não será possível construir uma base económica suportada em sectores de conhecimento intensivo, que produzam produtos e serviços de alto valor acrescentado, sem alterarmos este paradigma.

A utilização sistemática deste tipo de procedimentos, pela actual classe política dirigente de extrema-esquerda, é confrangedora.

Sem qualquer processo de aprendizagem perante os erros sucessivos que vão cometendo.

É, além disso, devastadora, em termos dum processo de melhoria sistemática da performance dos indicadores de desenvolvimento da nossa sociedade e humilhante, em termos da nossa reputação internacional.

Como se tem visto, nos tempos recentes.

 

Gestor de Empresas

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